05/04/2016 00:00:00 No Paraná: endividamento cai, inadimplência sobe

Fonte: Folha de Londrina

O volume de consumidores endividados no Paraná teve pequena queda em março, quando comparado com fevereiro, mas a quantidade de pessoas que admitem não terem condições de quitar as dívidas contraídas aumentou, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), divulgada ontem pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio PR). Especialistas afirmam que o cenário é consequência direta da retração do mercado de trabalho e da queda do poder aquisitivo. 

A pesquisa é elaborada mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e o universo paranaense da sondagem é composto de 500 famílias. No levantamento com números de março, o percentual de endividados no Paraná – pessoas que contraíram um compromisso financeiro contando com a renda futura – caiu de 85,5% em fevereiro para 84,4% em março, uma redução de 1,28%. 

Por outro lado, o menor endividamento não teve reflexo positivo nas contas em atraso: 27% dos entrevistados de março têm débitos vencidos em aberto, contra 24,2% em fevereiro, e 10,3% admitiram que não terão capacidade financeira de quitar as dívidas, ante 9,5% em fevereiro. 

O nível de endividamento do paranaense é mais alto em relação à média nacional, já que o percentual de brasileiros com algum tipo de dívida em março foi de 60,3% - uma leve queda em comparação aos 60,8% em fevereiro. Ainda em nível nacional, 23,5% dos endividados têm alguma conta em atraso e 8,3% não terão condições de pagar. 

CRÉDITO

Segundo o diretor de Planejamento e Gestão da Fecomércio-PR, Rodrigo Rosalem, o alto nível de endividamento do consumidor paranaense em comparação com a média nacional é histórica porque reflete os salários mais altos nas regiões Sul e Sudeste, o que amplia a oferta de crédito. Por outro lado, a queda no endividamento indica que houve menos vendas – uma retração percebida de 25,5% nos últimos 12 meses, segundo medição da CNC e Fecomércio – e menos oferta de crédito. 

Aliado a esses dados, o aumento no número de endividados que não conseguirão honrar seus compromissos na data é uma comprovação da redução nos ganhos do trabalhador e do avanço do desemprego. "A redução no endividamento ocorre não por um fator positivo, mais gente pagando à vista, mas porque está se vendendo menos", diz Rosalem. 

O consultor econômico da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Marcos Rambalducci, diz que o número de consumidores londrinenses com o nome negativado vem caindo ao longo dos meses, mas que foi 1,6% menor no mês passado quando comparado com o mesmo período de 2015. "O que acontece é que o trabalhador está ficando mais pobre. A taxa de inadimplência é histórica, mas hoje tem menos gente comprando tanto no crédito quanto à vista", diz. 

Rosalem também alerta para o fato de as dívidas pesarem mais para quem tem menor poder aquisitivo. O levantamento indica que o percentual dos que têm dificuldades para pagar os boletos chegou a 48% entre as classes C, D e E (renda até 10 salários mínimos, ou R$ 8,8 mil) em março passado, contra 26,2% nas classes A e B (ganhos acima de R$ 8,8 mil). 

Em outubro do ano passado, a diferença daqueles que admitiam dificuldades de pagar as contas entre as classes mais e menos abastadas era de 5 pontos percentuais – 32,3% entre os mais pobres e 27,2% entre os mais ricos. "É um indicativo de que a crise impacta mais nos quem têm menor renda", diz o diretor da Fecomércio. 

Outro ponto que chama a atenção é que o cartão de crédito ainda é a maior fonte de endividamento, mas que seu uso tem diminuído entre as classes mais altas e crescido nas mais baixas. De acordo com Rosalem, isso sugere que quem tem menor poder aquisitivo está utilizando o crédito para pagar o que antes comprava à vista.