31/07/2014 00:00:00 Fatia da China nas vendas do Paraná salta de 3% para 28% em 14 anos

Fonte: Gazeta do Povo

As exportações paranaenses nunca dependeram tanto da China. De 2000 para cá, o peso do país asiático nas vendas externas do Paraná saltou de 3% para quase 30%. Entre janeiro e junho deste ano, os chineses importaram US$ 2,35 bilhões em produtos do estado, o equivalente a 28% de todos os embarques, um recorde. No mesmo período do ano passado, a proporção era de 23%

Uma vez que a China importa principalmente soja, o Paraná também está cada vez mais dependente do grão. Cerca de 30% das receitas de exportação do primeiro semestre vieram da oleaginosa, o maior índice desde pelo menos 1997, segundo o banco de dados do Ministério do Desenvolvimento.

O Paraná não está sozinho nessa. Entre soja, minério de ferro, petróleo e alguns outros produtos, 22% das exportações brasileiras nos seis primeiros meses do ano foram para a China, maior índice já registrado em um primeiro semestre.

Paranaenses e brasileiros exportam tanto porque souberam aproveitar o forte e prolongado processo de crescimento econômico chinês, que impulsionou a demanda por matérias-primas. “O Brasil não poderia deixar de usufruir desse ganho, diante do aumento no preço internacional desses produtos”, diz Honorio Kume, professor de Economia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

O risco é que um problema mais sério do outro lado do mundo pode ter efeitos desastrosos por aqui. “A especialização em um único país significa que a participação dos demais está caindo. E, caso algo ocorra com a China, é certo que as exportações paranaenses terão um impacto direto”, avalia Rodolfo Coelho Prates, professor de mestrado e doutorado em Administração da Universidade Positivo.

Parceiro em crise

Ao menos por ora, crise é algo que parece improvável para a China. Sua economia cresce menos que na década passada, mas a taxa de expansão segue acima de 7% ao ano. Mas o Paraná já tem à disposição uma amostra do que acontece quando um grande parceiro comercial passa por dificuldades – é o caso da Argentina.

Segundo maior cliente do estado lá fora, o país vizinho reduziu em 32% as importações de produtos paranaenses neste ano. A maior prejudicada é a indústria e, dentro dela, o setor automotivo. No primeiro semestre, os embarques de veículos do Paraná em direção à Argentina despencaram 44%. Como os argentinos compravam dois terços do total exportado pela indústria automobilística do estado, no cômputo de todos os países as vendas desses produtos caíram 33% neste ano.

Esse movimento agravou ainda mais a situação das montadoras, que já produziam menos por causa da estagnação das vendas domésticas. Pelo menos por ora, as empresas não parecem ter alternativas de peso no mercado externo. O segundo maior cliente internacional do setor, o Peru, importou de janeiro a junho o equivalente a um quinto do que a combalida Argentina comprou.

Indústria tem pior resultado em 15 anos

O avanço do comércio com a China coincide com o encolhimento da indústria brasileira nas exportações. No Paraná, por exemplo, a participação dos produtos industrializados nas vendas ao exterior, que beirou os 70% em meados da década passada, caiu a 42% em 2014, a pior marca em pelo menos 15 anos. Mais da metade do que o Paraná embarca hoje são produtos básicos, que não passam por qualquer transformação, como a soja.

Há quem defenda que grande parte dessa retração se deve à valorização do câmbio, que ajudou a minar a competitividade da indústria no exterior ao mesmo tempo em que estimulou o salto nas importações de industrializados, muitos deles da China.

Essa troca de matérias-primas por manufaturados lembra a época do Brasil Colônia. Mas é raro encontrar quem considere possível reverter a relação com os chineses, até porque em geral eles não têm interesse em comprar industrializados; preferem fabricá-los por conta própria. “A única estratégia que as empresas industriais podem ter é buscar outros mercados”, avalia Rodolfo Coelho Prates, professor da Universidade Positivo.

Para Honorio Kume, da UERJ, o acesso a outros mercados passa por uma política de acordos comerciais, algo que o Brasil pouco fez nos últimos anos. “Além disso, é necessário reduzir as tarifas de bens de capital para estimular os investimentos de forma a elevar a competitividade da indústria”, sugere.

Debate em aberto

Muitos economistas consideram que a perda de participação da indústria e a concentração em produtos básicos são prejudiciais ao país. Mas Kume considera que esse é um debate em aberto. “O dólar que é ganho com a exportação de manufaturas vale mais do que o dólar ganho com a exportação de produtos agrícolas somente se a indústria gerar benefícios a outros setores da economia por meio de difusão tecnológica, salários mais elevados, etc. No entanto, não há evidência empírica que apoie esta afirmação. Há apenas alguns casos isolados”, argumenta.

Troca

País manda o couro e compra de volta bolsas e sapatos

O comércio de couro ilustra como funcionam as trocas entre Brasil e China. Os brasileiros vendem ao país asiático couro in natura ou com algum beneficiamento, e de lá importam sapatos, bolsas e outros acessórios.

“Não precisamos vender produtos industrializados para a China. O Brasil teria de ser uma plataforma de industrialização para atender a Europa e os Estados Unidos, e nisso concorrer com a China. Mas não somos competitivos nem aqui dentro, tanto que é mais barato importar um sapato de couro feito na China do que comprar um produzido no Brasil”, diz o empresário Evandro Durli, dono da Durli Couros.

A empresa, de São José dos Pinhais, na região de Curitiba, exporta couro semimanufaturado, dos tipos wet blue e semi-acabado. Na China eles passam por mais uma etapa de beneficiamento e são usados principalmente por indústrias de móveis, veículos e calçados. Cerca de 70% da produção da Durli Couros é exportada e, desse volume, 40% vai para a China.

15,6% das receitas da indústria paranaense em 2013 vieram das vendas ao exterior, segundo a Federação das Indústrias do Paraná (Fiep). Foi a menor fração em pelo menos 15 anos. Em 2008, a exportação garantiu 25,6% do faturamento total.