18/02/2019 09:38:07 Mais próximo do cliente

Por Celso Felizardo - Revista Mercado em Foco - ACIL

Pegar o carro, enfrentar o trânsito, achar um lugar para estacionar e voltar a tempo para cumprir seus compromissos. Se deslocar para fazer compras a cada dia se torna uma maratona que exige tempo e dinheiro. Nesse contexto do inchaço das grandes cidades é que ganha força o comércio de bairro. O fortalecimento dos núcleos comerciais periféricos tornou-se uma tendência mundial. De olho nessa onda, muitos empreendedores apostam neste filão.

De acordo com o consultor do Sebrae em Londrina, Rubens Negrão, uma pesquisa realizada pelo órgão revela que, até pouco tempo atrás, a tomada de decisão da compra estava muito ligada ao preço. Atualmente, o valor do produto aparece em terceiro lugar na lista de prioridades do cliente, atrás da localização do estabelecimento e a qualidade. “O consumidor está disposto a pagar um pouco mais pela conveniência. Ele não quer se deslocar muito longe do seu local de trabalho ou de sua casa”, comenta.

Um exemplo é o comércio estabelecido na região norte da cidade, mais especificamente na Avenida Saul Elkind. “Aqui tem tudo o que precisamos. Conheço pessoas que nasceram aqui e nunca foram ‘pra cidade’”, conta a comerciária Cristina Gomes Marques terminando a frase com a expressão popular usada para se referir à região central. “Moro na zona norte desde os quatro anos de idade. Antes não tinha nada aqui. Tenho muito orgulho do que nosso bairro se tornou”, ressalta.

Outra que carrega o orgulho de suas origens na região e que decidiu apostar na zona norte é a empresária Simone Carmona, proprietária da Ótica Carmona. Ela e a irmã assumiram há quase um ano o negócio que já funciona no local há nove anos. “Fui criada no Vivi Xavier e conheço muito bem o potencial da região. Resolvi apostar aqui”, relata. Sua primeira mudança foi a quebra de paradigmas. “Existe a falsa sensação que o comércio de bairro precisa trabalhar só com produtos populares. Nós apostamos em produtos de grife e os resultados estão sendo ótimos”, comemora.

Para Simone, os moradores de lá “vivem o bairro”. “Hoje temos grandes redes, franquias. Mas há aquela identificação. As pessoas passam para tomar um café, há uma relação de confiança. Muitas vezes eles vêm aqui só para tomar um café e conversar um pouco. Acho que este tipo de atendimento é um grande diferencial”, avalia.

A região dos Cinco Conjuntos que começou a se formar há exatos 40 anos tem franquias de grandes redes, agências bancárias, lojas de vestuário, farmácias, supermercados. Roseli Belira Machado, proprietária da Rei dos Carrinhos, especializada em artigos para o público infanto-juvenil, tem duas lojas: uma no centro e outra na Saul. Para ela, apesar de muita gente do bairro comprar ali, muitos ainda preferem se deslocar. “Temos que mudar essa mentalidade e valorizar o comércio de bairro. Vejo gente que sai daqui para comprar na outra loja. Não tem lógica. É o mesmo preço e aqui tenho mais variedade de produtos”, expõe.

A explicação do economista Marcos Rambalducci é que mesmo prestigiando o comércio de bairro, os moradores vão ao centro ou aos shoppings fazer compras como forma de passeio. “Muitas vezes tem aquele produto no bairro dele, mas hoje as compras se tornaram um atrativo de lazer. Aqueles produtos do dia a dia, esses ainda são comprados no comércio mais próximo”, compara.

Para Negrão, a saída para o comércio de rua é investir para se tornar um “shopping a céu aberto”. “Os comerciantes de uma mesma região devem pensar em soluções conjuntas, como fatores de inclusão, acessibilidade, segurança. O visual das empresas conta muito, manter uma vitrine atrativa. É preciso pensar no conceito de que o comércio precisa ser hoje um centro de entretenimento”.

A necessária sinergia

O consultor do Sebrae destaca ainda que a união dos comerciantes conta muito para o fortalecimento de uma região. “É preciso se organizar de alguma forma, em associações ou até mesmo em grupos de WhatsApp. Fazer campanha de limpeza da rua, por exemplo. Não se pode esperar tudo do poder público. É preciso criar sinergia. O que adianta a minha vitrine estar bonita e a do vizinho não? Não existe mais mundo isolado”, alerta.

Além da Saul Elkind, Negrão e Rambaducci destacam o comércio da Avenida Inglaterra, na zona sul da cidade. “É um outro extremo em que o comércio está estabelecido, onde as agências bancárias acompanham as lojas. Essa estrutura é fundamental para o desenvolvimento de uma determinada região”, aponta Rambalducci.

Adilson Abila, proprietário do supermercado que leva o nome da família, está há 40 anos no mesmo ponto. Ele acompanhou o surgimento dos extras e resistiu à concorrência. “O supermercado de bairro tem uma característica diferente. Estamos ‘na cara do gol’. Essa proximidade com o cliente é ótima, mas sabemos que ele não vai comprar tudo conosco. Ele vai optar por itens específicos, uma carne ou uma salada para o almoço”, exemplifica. Para ele, investir na qualidade é essencial para segurar o cliente. “A concorrência hoje é muito forte. Por isso o mercado de bairro tem que ter bons produtos. É um diferencial”, analisa.

O setor de alimentos é o mais consolidado nos bairros, de acordo com Rambalducci. No entanto, outros setores ganham espaço, como o de vestuário e artigos de informática. “Nas pesquisas que fazemos, há uma evidência clara nas vendas de calçados e também em acessórios e serviço de manutenção de celulares”, diz o economista. Luiz Antonio Ferreira, dono da Blue Cell, especializado em artigos para celulares, está há oito meses na zona norte. “Estou gostando bastante. Apesar de ser um comércio de bairro, uso bastante as redes sociais para fazer publicidade. As pessoas hoje estão muito conectadas. Às vezes, apesar de próximas, estão distantes”, conta.

Além da zona norte e sul, com seus polos comerciais já estabelecidos, outros centros chamam a atenção nas regiões oeste e leste da cidade. Dia de prêmio acumulado, uma grande fila se forma na lotérica do Jardim Bandeirantes, na zona oeste. Ao lado, os vendedores do Bazar Trevo comemoram o movimento. “Aqui no bairro a gente encontra de tudo. Só não compra aqui quem quer manter o ‘status’. Não tenho o que reclamar do comércio local”, diz Odete Rodrigues, atendente.

Corrente que funciona

Segundo ela, a fidelização do cliente é na base da amizade. “Elas [clientes] vêm pra contar a vida. Não tem problema. Se tornam amigas mesmo. Tomam um cafezinho. É assim mesmo”, conta. E tudo funciona como uma rede. “A gente indica vizinhos, eles nos indicam”. A manicure Cleonice Aparecida da Silva Barroso é uma das clientes do bazar. “O comércio aqui é muito importante para o bairro. Tem quase tudo, me viro por aqui mesmo”. Segundo ela, é uma troca. “Temos que dar valor e ajudar quem nos ajuda. Elas são minhas clientes e sou delas. É uma corrente que funciona”.

Na Avenida Arthur Thomas, na mesma região, funciona a Eletro Conduluz, casa de materiais de construção especializada em artigos elétricos. Segundo o gerente Mário Jorge Brito dos Santos, o estabelecimento migrou da Avenida Juscelino Kubitscheck há 20 anos já prevendo a questão do estacionamento. “Se há duas décadas o problema já existia, de lá para cá só aumentou. Aqui temos um espaço amplo para os carros e hoje isso é fundamental. Com esse atrativo, além de toda clientela do bairro, atendemos até de outras cidades”, conta.

O centro comercial da Avenida São João, na zona leste, é outro que se destaca e supre quase todas as necessidades dos moradores da região. Vinícius da Silva Oliveira é proprietário da Max Estofados, estabelecida ali há oito anos. A família tem outra loja na Avenida Winston Churchill, na zona norte. “O comércio de bairro é muito importante. Nós nos adaptamos bem a essa realidade. Oferecendo um bom produto, você ganha a melhor publicidade que existe, a boca a boca”.