23/12/2014 00:00:00 Manter ações da Petrobras é projeto para longo prazo


As ações preferenciais ou ordinárias da Petrobras somaram queda de 34% entre janeiro e ontem na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o que faz com que o investidor fique em dúvida se deve manter ou vender os papéis da estatal. Analistas do mercado financeiro se dividem nas respostas diante da crise na companhia e o mais próximo de um consenso a que chegam é que, se o objetivo for fazer um investimento de longo prazo, vale a pena arriscar na manutenção da carteira. 

No dia 2 de janeiro deste ano, as ações Petrobras ON valiam R$ 15,28. O pico neste ano foi em 2 de setembro, com R$ 23,29, aumento de 52% sobre o início do ano. Quem não vendeu neste dia, entretanto, amargou perdas de 63% se considerada a cotação de 15 de dezembro, quando o papel atingiu o piso histórico de R$ 8,52. Ontem, em sessão de alta, a ON fechou em R$ 9,98, ainda em 34% a menos do que em janeiro. 

Gangorra que tem a maior causa no estancamento de reajustes de preço de combustíveis nos últimos anos, que minou a capacidade de investimento da companhia e também a confiança de investidores. A situação se agravou com a crise política iniciada a partir de denúncias sobre a compra de refinaria em Passadena, nos Estados Unidos, que teria dado prejuízo, e com a Operação Lava Jato, deflagrada em março último e que investiga lavagem de dinheiro ligada a políticos e ex-dirigentes da Petrobras. 

A queda do preço do barril de petróleo nos últimos meses ainda ajudou a colocar dúvidas na cabeça de investidores, mas são as denúncias de corrupção que devem deixar as ações mais instáveis ao menos no próximo semestre, diz o professor de finanças da faculdade Ibmec no Rio, Gilberto Braga. "Neste momento, não é possível enxergar uma luz no fim do túnel pelos problemas políticos." 

Braga avalia que alguns investidores consideram que as ações da estatal já chegaram ao fundo do poço, enquanto outros acreditam que a lista de envolvimento de políticos e a divulgação do balanço da empresa, adiado até 2015 a pedido de auditores, podem baixar o preço para R$ 5 por papel. No longo prazo, porém, ele diz que vale a pena. "Para quem comprou por valores muito mais elevados, é boa oportunidade para comprar mais na baixa e recalibrar as médias das ações quando o preço subir. Mas é preciso ter estômago forte porque, no mercado de renda variável, não se promete rendimentos", sugere, tanto para quem fez investimento direto como para quem usou o Fundo de Garantia. 

Analista da Gaide Investimentos, Luís Gustavo Pereira diz que a perspectiva para o curto prazo é de cautela. "Principalmente porque o balanço que deve ser divulgado em janeiro, caso não seja o auditado, pode exigir a recompra automática de US$ 7 bilhões em papéis em dívidas pela Petrobras", afirma. Para quem pensa em manter as ações por no mínimo três anos, porém, ele vê chance de recuperação na cotação. "Há aumento de produção, aumento de exportações e expectativa de mudanças na direção da empresa", explica, apesar de condicionar novos investimentos em papéis da estatal ao andamento do noticiário sobre corrupção. 

Quem destoa nas análises é o consultor de investimentos Rafael Cordeiro, da Inva Capital, que afirma que o ideal é se vender o que se tem e não comprar. "Paramos de recomendar a Petrobras há mais de dois anos, porque deixou de ser uma empresa voltada a gerar lucro e a crescer", diz. Para quem tem cerca de 10% do Fundo de Garantia aplicado na estatal, ele recomenda vender "ao menos um pouco, porque ganhar o máximo é quase impossível". 

Nenhum dos analistas acredita que a estatal possa reviver o desastre da petrolífera OGX, de Eike Batista. "Não é possível porque a Petrobras já produz e, daqui a dez anos, vai continuar produzindo e as ações estarão mais valorizadas", diz Cordeiro.