19/06/2017 07:47:22 Mercúrio, o elo da ACIL moderna com suas origens

Fonte: Revista Mercado em Foco - Por Fábio Cavazotti

Um dos principais símbolos da Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL) completa 76 anos de vida em 2017. Encimava a antiga e histórica sede da Associação (quando ainda se chamava ACL), inaugurada em 1942 e demolida na década de 1970 para dar lugar ao atual Palácio do Comércio.

A partir desta época, permaneceu exposta por mais de dez anos na reitoria da Universidade Estadual de Londrina (UEL), até retornar, no início anos de 1990, ao térreo do edifício de onde hoje contempla os frequentadores da atual sede da ACIL e os transeuntes da Praça Willie Davids.

Trata-se de uma réplica em bronze de Mercúrio, a divindade da antiga Roma relativa ao comércio, às vendas e ao lucro e associada ao deus Hermes, da Grécia antiga. Com aproximadamente quatro metros de altura, teve a autoria descoberta pela reportagem (com auxílio da jornalista Aleksa Marques).

Até agora, sabia-se apenas que havia sido encomendada pelo primeiro presidente da ACIL, David Dequech, a um artista de São Paulo, no início da década de 1940. A obra foi concluída em 1941 (941 como grafada na base) e já estava instalada no topo da antiga sede quando de sua inauguração, em janeiro de 31 de janeiro de 1942, conforme mostram fotografias da época. Sua colocação acarretou uma verdadeira operação, com participação de quase 10 operários e assistida por dezenas de curiosos.

A estátua foi feita pelo artista Lélio Coluccini, um italiano nascido em 1910 que, ainda menino, emigrou para o Brasil. Em Campinas, antes dos dez anos já mostrava habilidades artísticas na confecção de pequenas estátuas para cemitérios, auxiliando o pai na Marmoraria Irmãos Coluccini, em Campinas, especializada na produção de lápides e túmulos.

Nesta época, um crítico de arte, impressionado com uma réplica de argila da cabeça de Cristo feita pelo menino, convenceu seu pai a enviá-lo à Itália para estudar no Instituto d´Arti Stagio Stagi, em Pietrasanta, na região de Carrara, uma das mais tradicionais do mundo no estudo e confecção de esculturas, especialmente de mármore.

Lélio passou praticamente quinze anos na Itália e voltou ao Brasil em meados da década de 1930, onde deu início a uma profícua carreira artística que durou mais de meio século e passou por diversos materiais, como bronze, mármore, granito, argila, gesso e papel machê.

A estátua de Mercúrio foi feita quando Lélio Coluccini tinha 31 anos e morava no bairro industrial do Brás, em São Paulo. Casado havia pouco tempo, tinha uma filha de três anos e trabalhava num ateliê instalado no fundo de sua casa. A residência era próxima a uma indústria de caldeiras de propriedade de seu sogro. A filha é a também escultora Helena Coluccini, que mora em São Paulo até hoje, onde mantém um ateliê e é professora de artes. Atualmente, com 78 anos, Helena conversou por telefone com a Mercado em Foco e confirmou a autoria de seu pai a partir de imagens da obra, em especial da assinatura.

“Não tenho lembranças da obra, tinha apenas três anos na época. Mas é dele mesmo. É muito bonita”, conta.

Segundo Helena, o Mercúrio tem características acadêmicas, uma fase em que seu pai se preocupava com a reprodução detalhada das características corporais. Com o passar dos anos, seu trabalho foi adquirindo traços mais estilizados, privilegiando as formas e movimento em detrimento dos detalhes físicos.

Acervo

A obra de Lélio Coluccini é bastante conhecida nas cidades de São Paulo e de Campinas, para onde retornou na década de 1950, após se separar da primeira esposa. Em São Paulo, estão duas de suas principais esculturas: Leda e o Cisne, em bronze, que faz parte do acervo permanente da Pinacoteca de São Paulo; e A caçadora, em granito, exposta no jardim de esculturas do Museu de Arte Moderna (MAM), no Parque do Ibirapuera. Juntamente com o Mercúrio, as duas obras mantêm a temática mitológica que marcou boa parte de sua carreira.

Em Campinas, Lélio Collucini é responsável por alguns dos principais monumentos urbanos, como os Monumentos do Bicentenário e das Andorinhas, além de diversas obras comemorativas e bustos de personagens históricos.

“Meu pai ficou bastante conhecido a partir dos anos de 1940. Era muito amigo do (Victor) Brecheret, um dos maiores escultores do País. Frequentavam muito o ateliê um do outro”, lembra Helena. Brecheret, também nascido na Itália, é conhecido do grande público por ser autor do Monumento às Bandeiras, símbolo da cidade de São Paulo.

Outro personagem que manteve relação de amizade com Coluccini foi o então prefeito da capital paulista, Francisco Prestes Maia. Responsável por uma revolução urbanística, Prestes Maia solicitou diversas obras ao artista, até hoje espalhadas nas ruas e praças. Coincidência ou não, a vida de Prestes Maia também cruzaria com a de Londrina dali a alguns anos, no início da década de 1950, por meio de uma consultoria à Prefeitura do Município que culminou na atualização das diretrizes viárias e de zoneamento urbano.

Lélio Coluccini morou em Campinas até sua morte, em 1983. Foi enterrado no Cemitério da Saudade, naquela cidade, onde a maior parte das obras e esculturas são de sua própria autoria. Assim, morreu como viveu o ítalo-paulista, cercado por suas próprias obras, e mesmo sem nunca ter vindo ao norte do Paraná passou a fazer parte do patrimônio histórico e afetivo de Londrina.

‘Deus’ de asinhas

Quando foi inaugurada em 1942, a primeira sede da então Associação Comercial de Londrina (ACL) causou grande impressão na população local. Com três andares e arquitetura art decó, o edifício logo passou a ser conhecido como o mais alto e mais belo do interior paranaense. No topo frontal, a estátua do deus Mercúrio, com seu dedo apontado para o céu, asas nos pés e o caduceu – o bastão representativo do comércio em torno do qual duas serpentes se entrelaçam e são arrematadas, na parte superior, por um par de asas. Na mitologia greco-romana, Mercúrio era responsável por levar as mensagens entre Júpiter e outros deuses, por isso tinha os pés alados para lhe dar agilidade.

“Para nós, crianças numa cidade ainda pequena, a estátua era uma atração enorme. O papai comentou que o David Dequech mandou fazer uma estátua do Mercúrio. A gente nunca tinha visto aquilo, nem por fotografia. Quando chegou, ficamos fascinados. Um Deus, e ainda por cima, de asinhas. Era fascinante”, lembra-se Gladys Silva Lessa, que chegou a Londrina em 1937 com os pais Nina e José Bonifácio - ele presidente da ACIL na década de 1940.

Outra criança daquela época com lembranças ainda frescas do Mercúrio e da antiga sede da ACIL é Nelson Dequech, filho de David Dequech, um dos fundadores da associação.

“Aquilo lá foi o cartão postal da cidade por muito tempo. Não só pela estátua, mas pelo relógio e pelo próprio prédio. Dentro, tinha obras de arte, duas estátuas de Ceres (deusa da Agricultura) e um salão nobre muito luxuoso. E foi feito por meia dúzia de pessoas”, relembra. “Brinco que a associação foi fundada por 100% dos comerciantes de Londrina. Eram menos de 20 pessoas, mas 100% dos comerciantes daquela época”.

Por falta de lugar, após a demolição do antigo edifício, em 1973, a estátua de Mercúrio deixou pela primeira vez as dependências da Associação e foi abrigada na reitoria da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

“Eu me lembro quando ela chegou. Inclusive, ajudei o prefeito da cidade universitária a escolher o lugar. Ficou lá instalada num pedestal e foi muito bem cuidada. É um trabalho muito lindo, aprecio bastante as suas formas”, relembra Acely de Melo, que durante mais de 30 anos foi secretária dos Conselhos Superiores da UEL.

O retorno para o centro da cidade veio apenas na gestão do ex-presidente da ACIL, Alberto Rapcham, já no início da década de 1990, na esteira do período em que a associação incluiu as indústrias em seu quadro de associados e passou a ter a atual nomenclatura.

“A estátua representa o comércio, que estávamos integrando à indústria naquela época. Achamos importante trazer o Mercúrio de volta e conversamos com o reitor, que não se opôs. Tomamos as medidas legais e fizemos uma laje de sustentação onde tinha um pequeno jardim. Está lá até hoje”, conta Rapcham. Para comemorar o retorno da obra ao endereço da ACIL, foi realizada uma solenidade de reinauguração, com a presença de toda a diretoria da época.

“Foi muito importante o retorno. É um símbolo da ACIL. Se lembrarmos de nosso primeiro prédio, ela está lá no alto. Já era hora de voltar para o seu lugar”, conta Rapcham.

Técnica

A estátua de Mercúrio é feita em bronze, mas até chegar à aparência final passa por uma série de processos e técnicas. Incialmente, a estátua é moldada em argila, à mão, até atingir a forma desejada. A partir daí, é coberta por gesso para criar uma fôrma em negativo (processo semelhante ao de próteses dentárias). Depois a argila é retirada e no interior do gesso é colocado o bronze. O metal então toma a forma original da argila e dá o contorno final à obra. A técnica também é bastante utilizada em bustos e outros monumentos comemorativos confeccionados a partir do bronze e outros metais.

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