19/05/2017 11:08:56 Muito a Temer

Fonte: Folha de Londrina

As implicações do presidente Michel Temer na Operação Lava Jato, em que ele passou a ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal após gravações de delatores do grupo JBS em que aparece dando aval para a suposta compra de silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), caíram como uma bomba na economia brasileira. E ainda que em pronunciamento na quinta à tarde o presidente tenha alegado inocência e assegurado que não renunciará, a bolsa suspendeu as negociações adotando o mecanismo de circuit break. 

Isso significa que as ações que compõem o índice Ibovespa, dos papéis mais líquidos, tiveram seus preços negociados no limite máximo de queda permitido pela Bolsa antes de interromper os negócios. A medida não era tomada desde 2008.

Mas os novos desdobramentos da Lava Jato, na avaliação dos especialistas, terão efeitos a curto e médio prazo, principalmente em relação ao andamento das reformas Previdenciária e Trabalhista, e com isso frear a sensação de retomada econômica. Nesta quinta-feira (18), o relator da reforma trabalhista em duas comissões do Senado, Ricardo Ferraço (PSDB-ES), afirmou por nota que não vai entregar o parecer do projeto conforme o calendário previsto. O senador argumenta que a crise institucional é tão grave que a reforma se tornou "secundária". 

Crise de confiança 
Segundo o coordenador do Fórum de Economia e professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV EESP (Fundação Getúlio Vargas), Nelson Marconi, a atividade econômica vai piorar ainda mais em função da incerteza política, da crise de confiança e do cenário fiscal. "Os parcos investimentos serão paralisados, dada a crise de confiança. A redução da taxa de juros poderá ser interrompida (ou ter seu ritmo reduzido), e as reformas não serão aprovadas rapidamente. Talvez, nem sejam votadas". 

O economista considera positivo que a reforma trabalhista não seja votada agora, pois não foi discutida com a sociedade. No entanto, a postergação da reforma da previdência complicará mais o cenário fiscal. Segundo ele, caberá ao governo, seja lá qual for, blindar o Banco Central e o Tesouro Nacional. O dólar, por sua vez, na avaliação de Marconi, terá grandes oscilações, e as empresas já estão sendo afetadas, com o valor das ações em bolsa caindo. 

A economia deve viver nas próximas semanas em compasso de espera. "Antes, a dúvida era quem governaria em 2018. Agora, a questão é se o governo terá sustentação. Fica tudo adiado (reformas) para depois da eleição direta em 2018. Vamos ficar andando no ponto morto", comenta Adilson Antonio Volpi, economista da UFPR (Universidade Federal do Paraná). 

Volpi afirma que o empresariado estava precificando em cima de uma nova situação econômica com a aprovação das reformas, que impactariam diretamente a dívida pública. "Se alguém estava acelerando investimentos, agora vai pensar duas vezes." 

Credibilidade 

Em relação à expectativa, a situação volta a ficar complicada, mas não significa, na avaliação do economista, que a economia vai piorar. Mas ressalta que caso a dívida pública não seja controlada e o Banco Central não continue a tendência de queda da taxa de juro, pode mandar um sinal negativo ao mercado. "Isso cria um sério problema de credibilidade externa", afirmou Volpi. 

A instabilidade política também pode provocar uma fuga de capital e elevação do câmbio. "O capital especulativo, que veio recentemente para explorar os ativos brasileiros baixos, esse do jeito que entrou, sai correndo", diz. Para o economista, a situação econômica só deve recuperar a estabilização com a definição de um governo de quatro anos.

'O empresariado está atônito' 
O momento é de manter a serenidade, na avaliação do presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL), Cláudio Tedeschi. O empresário afirma que o atraso nas reformas da Previdência e Trabalhista geram uma insegurança entre o empresariado, mas que é preciso garantir que as estruturas institucionais funcionem. "Quem tiver que ser julgado, que seja, e esperamos que os políticos sigam os trâmites previstos na Constituição", pondera. 

"O empresariado está atônito. Esperávamos uma retomada do crescimento com as reformas. Há distorções dentro da Previdência que precisam ser corrigidas e estamos, na área trabalhista, com uma guerra de ações judiciais", comenta o presidente da ACIL. 

Tedeschi acredita que fazer uma eleição direta, com menos de um ano para o fim do governo, será um processo traumático e que o mais recomendado é seguir o que determina a Constituição (eleições indiretas). "Temos uma equipe econômica capacitada e é preciso que esse processo econômico continue. Claro que haverá sobressaltos, mas sou favorável de ter serenidade neste momento para garantir a segurança jurídica do processo." Ele avalia que se "o Brasil demonstrar que tem uma maturidade constitucional o mercado vai se acalmar". 

Renúncia 

A Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) pede, por meio de nota, "sensatez e responsabilidade a todas as esferas da sociedade. Pela gravidade dos fatos, caso confirmadas as denúncias, sugerimos que o presidente da República, um homem que se diz legalista, renuncie a seu cargo. Esse gesto será importante para que o país não precise passar por um novo e desgastante processo de impeachment, que se mostrou danoso para toda a nação. É preciso ainda que sejam obedecidos todos os ritos constitucionais para a eventual definição de um novo presidente da República", diz a nota. 

A Fiep esclarece que o deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) não mantém vínculo com a entidade. Loures foi filmado pela Polícia Federal recebendo valores do empresário Joesley Batista, do grupo JBS, como intermediário do presidente Michel Temer, para pagar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha.

Durante a gestão anterior da Federação, ele participou de alguns Conselhos Temáticos, dos quais deixou de fazer parte desde o primeiro mandato da atual diretoria, iniciado em 2011. O parlamentar é filho do empresário Rodrigo Rocha Loures, que presidiu a Fiep entre 2003 e 2011. Atualmente, o ex-presidente também não mantém qualquer vínculo com a entidade.