21/08/2014 00:00:00 O renascimento do Marco Zero de Londrina

 

Por Michely Massa/Revista Mercado em Foco ACIL


Como nasce uma cidade de quase 600 mil habitantes? Como uma região, onde a natureza reinava com suas densas florestas, pode se tornar esta Londrina? O desenvolvimento, que hoje é visto com facilidade ao abrir a janela, teve início em meio à mata fechada. Um marco de madeira fincado a terra determinou o ponto de origem.  Tudo começou ali, no marco zero.

“Chegamos!” Afirmou o engenheiro russo Alexandre Razgulaeff, após consultar os mapas. Como a paisagem de mata era a mesma, seus companheiros questionaram: “Chegamos aonde?” Eles ainda não sabiam, mas haviam chegado ao ponto exato em que foi gerada a segunda maior cidade do Paraná. E Londrina fez o que, até hoje, faz de melhor: acolheu a caravana de desbravadores comandada por George Craig Smith. Era 21 de agosto de 1929, dia em que a cidade foi fecundada. Fruto da união entre uma terra fértil e os corajosos homens da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP).

Antes de ser a “Filha de Londres”, essas terras foram chamadas de Patrimônio Três Bocas, depois, Patrimônio Londrina. E, por cinco anos, três meses e 12 dias, viveu uma espécie de gestação, até o nascimento oficial do Município de Londrina, criado em 3 de dezembro de 1934. A instalação do município ocorreu uma semana depois, no dia 10, data em que é celebrado o aniversário da cidade.

Mas há quem defenda a mesma ideia de George Smith, exposta em um depoimento sobre a chegada da caravana e os primeiros anos de colonização: “Londrina, na verdade, nasceu naquela tardezinha de 21 de agosto de 1929”.

O resgate da memória

“O Marco Zero não tinha esse nome, ninguém o chamava assim. Fui eu quem escolhi o nome”, conta orgulhosa Marina Zuleica Scalassara, 81 anos, museóloga aposentada. Ela dedicou parte de sua vida ao Museu Histórico de Londrina e foi fundamental no resgate histórico do início da cidade.

Com o passar do tempo, a chegada da caravana ficou esquecida. Poucos conheciam os detalhes sobre aquele momento. Na época, a maior referência sobre a região e os desbravadores era George Smith. “Ele ficou fora de Londrina por um tempo e voltou em 1975. Ia muito ao museu. Tudo que ele contava, ele comprovava por meio de imagens e nós íamos comprovar in loco. Ele indicou o ponto do Marco Zero”, conta dona Zuleica, como é mais conhecida.

A valorização dessa história teve início durante os encontros entre pessoas ligadas ao museu na casa de José Juliani, o primeiro fotógrafo oficial da cidade. “Era o jubileu de ouro, em 1984, e queríamos dar uma conotação histórica profunda aos festejos. Estávamos reunindo fotos sobre os primeiros anos de Londrina, para uma exposição”, explica Zuleica.

Foi nesses encontros, segundo dona Zuleica, que o professor Nelson Ubiali teve uma ideia: “E aquela mata? Temos que fazer algo que destaque aquela região”. O próximo passo era se reunir com a Comissão Organizadora das Comemorações do Cinquentenário de Londrina. “Fomos até lá para falar que era preciso valorizar e revitalizar o Marco Zero. Eles concordaram”.

Hylea Ferraz, filha de Alceu Ferraz, primeiro médico endoscopista de Londrina, era, na época, Diretora Cultural da ACIL e fazia parte da Comissão do Cinquentenário como coordenadora geral de eventos. “Um dos eventos que marcariam os 50 anos era a instalação do Marco Zero. Meu pai era muito amigo de Sir George Smith e a preocupação deles era a preservação do local e o esquecimento das gerações posteriores. Sendo assim, acharam que o aniversário da cidade seria uma bela data para a instalação da lápide”, lembra Hylea.

Em 3 de dezembro de 1984 foi inaugurado o monumento. George fez o discurso. O texto na lápide foi feito por Dr. Alceu, sem assinatura. “Para que não perpetuasse o nome dele. A ideia era preservar o local”, diz Hylea. As crianças da Escola Municipal Maestro Andrea Nuzzi cantaram o Hino a Londrina. Também teve a Banda Municipal e muita gente festejando a data.

“No jubileu de prata, a festa foi apenas para a alta sociedade. Nos bailes em salões. Nós conseguimos trazer isso para a população de Londrina, aproximamos os londrinenses de sua história”, conta dona Zuleica, que completa: “Apresentar essa história é não ficar em contos de fadas. Fica a realidade. Nem todas as cidades têm isso tão real, tão presente”.

Para Hylea, que hoje também trabalha nos festejos dos 80 anos de Londrina, é fundamental lembrar o passado. “Na maioria das vezes é na origem que se encontra a essência das coisas, as principais características que serão desenvolvidas posteriormente.”

O professor de latim aposentado Nelson Ubiali, também destaca essa importância, principalmente entre os mais novos. “A escola teria que divulgar mais essa história. Debater o tempo todo. Fazer o levantamento da cidade.”

Sobre a escolha do nome, dona Zuleica conta: “Eu morei em São Paulo um tempo para estudar. Gostava muito de ir ao Marco Zero, um monumento que fica na Praça da Sé. E pensei: aqui também pode se chamar Marco Zero. Por que não?”

Guardião da mata

Quem também era muito amigo de George Smith e Alceu Ferraz é Pedro Dias Barbosa, 76 anos. Ele esteve nos festejos de 1984. Aliás, ele está lá há 43 anos. Um morador da mata que tem o monumento do Marco Zero no quintal.

Seu Pedro chegou a Londrina com 17 anos, em janeiro de 1971. Aos 33 anos, era funcionário da Companhia de Terras Norte do Paraná, dona da área, e foi colocado na casa em meio às árvores com a responsabilidade de cuidar do espaço.  Nascia ali uma história de amor com a natureza, que lhe emprestou o sobrenome. Hoje, ele é Pedro da Mata.

No início, seu Pedro conta que uma das dificuldades era mudar o habito das pessoas que entravam na mata atrás de remédio. “Eles tiravam a casca da árvore para fazer chá. Eu falava que se preciso fosse, eu subia, arrancava um galho e a pessoa levava pra casa. O efeito do remédio é o mesmo e não machuca a árvore, que pode até morrer.”

Se, mesmo assim, ainda descascassem a árvore, seu Pedro tinha uma solução. “Eu pegava uma embira de bananeira, um barro bom, passava na parte descascada da árvore, enfaixava e conseguia salvá-la.”

Outro desafio é lidar com pessoas que procuram a mata para consumir drogas. “Muitos viciados entram aqui. Antes era mais. Não pode descuidar. Mas, eu faço um trabalho olho no olho. Converso com eles, falo que esse é um caminho sem volta. Deus me deu o privilégio de preservar essa área sem violência. Todos eles me respeitam.”

Hoje a rotina de seu Pedro é acordar cedo, tomar café e fazer a ronda. “Ando pela mata, olho, cato o lixo. Aqui está cheio de perobinha rosa e isso é uma raridade”, observa. Mas ele cobra um olhar diferenciado também por parte das autoridades. “O progresso é bom, emprega muita gente. A cidade se desenvolve e isso não está errado. Mas tem que olhar para o outro lado também. O meio ambiente é o lado da vida, é o mais importante.”

E a preocupação de seu Pedro não é à toa. São 39 mil m² de mata, sendo a metade Área de Preservação Permanente (APP), com seis nascentes.  Porém, há problemas, como erosões, resultantes do descaso ao logo dos anos. Situação que, aparentemente, está prestes a mudar.

A nova face de um lugar histórico

“O objetivo é que a mata do Marco Zero se torne um ponto de visitação”, destaca a vereadora Sandra Graça, coordenadora de um grupo de trabalho da Câmara Municipal de Londrina, que busca uma solução para a recuperação e manutenção do local. Diversas reuniões foram realizadas desde o início do ano, envolvendo representantes da prefeitura, Ministério Público, órgãos ambientais e o empresário Raul Fulgêncio, responsável pelo Complexo Empresarial Marco Zero, do qual a mata faz parte.

Um estudo hidrogeológico detalhado e um Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (Prad), inéditos para a região, foram apresentados. Fulgêncio assumiu o compromisso de transformar o espaço. “A área será revitalizada, terá recepção e trilhas para visitação. A ideia é que esteja funcionando até o próximo aniversário da cidade, dia 10 de dezembro”, conta. Pelo menos a primeira parte do trabalho, pois, segundo Sandra Graça, a revitalização levará anos.

“Era o sonho do seu George, que isso daqui se transformasse em um cartão postal”, revela Pedro da Mata.