13/10/2015 00:00:00 Leia na Mercado em Foco: Na direção dos Desafios

Fonte: Renato Oliveira - Revista Mercado em Foco - ACIL

Dizem que uma das escolhas que mais pode comprometer a vida de qualquer pessoa é a carreira profissional. Um errinho de cálculo pode representar anos perdidos. Ou o contrário: uma aposta pode dar certo, e muito certo. E este foi o destino do empresário Flávio Antonio Meneghetti que, em 1973, estava diante de um dilema.

Nascido em Cândido Mota e formado em Administração de Empresas, havia acabado de receber uma promoção do First National Bank of Chicago para trabalhar na matriz nos Estados Unidos. Era (e até hoje é) o sonho de qualquer jovem executivo. Mas um desafio proposto por seu pai, Paschoal Meneghetti, mudaria completamente seu destino profissional.


Divisor de águas


Aos 25 anos de idade, Flávio deveria escolher entre seguir a carreira no banco ou voltar para Londrina e assumir o novo negócio que o pai planejava. Era a decisão da sua vida. “Quando voltei dos Estados Unidos, em julho de 1973, ele veio com essa história de assumir a Marajó. Falei que não dava, pois tinha acabado de voltar de Chicago. O banco tinha investido em mim. Ficaria muito chato pedir demissão”, recorda. Ele diz que ficou segurando a situação até setembro, quando a direção do banco o procurou para dizer que voltaria para os EUA. “Aquilo foi o limite e tive que abrir o jogo. Eu estava sendo promovido e os caras ficaram de queixo caído quando pedi demissão”.

Mas o caminho estava trilhado. Logo em seguida Flávio se repatriou ao Norte do Paraná para se tornar sócio-fundador da Marajó Comércio de Veículos, ao lado de outros quatro empresários: Vitor Bastos, Rubens Accorsi, o ex-prefeito Wilson Moreira e o antigo companheiro de negócios de seu pai, Elias Montosa.


Ousadia nos negócios


A Marajó se originou depois de um gesto ousado do Sr. Paschoal Meneghetti. De uma só vez, o pai de Flávio comprou dez caminhões da Fábrica Nacional de Motores (FNM), a popular Fenemê. O objetivo de Paschoal era aumentar a distribuição de combustível da Texaco, que ele havia iniciado em 1956. Na época, além da fábrica de caminhões estatal, havia outros dois concorrentes: Scania e Mercedes Benz, tocados respectivamente pelas famílias Lopes e Jabur. Quem quisesse comprar um Fenemê tinha que ir a Maringá ou Apucarana.

Assinados os papéis, a Marajó tornou-se a principal vitrine de uma Fenemê desacreditada no mercado. Flávio lembra que a construção do prédio da concessionária, que fica na Avenida Tiradentes, era um “verdadeiro elefante branco”. “Foi por falta de orientação e conhecimento que construímos essa estrutura; era muito maior do que precisávamos na época. Mas a FNM via que a Marajó estava investindo e usava isso para mostrar para os outros que tinha gente que confiava nela. Era o grande projeto deles”, conta.


A Fiat entra na história


Mas dois anos depois, em 1975, uma reviravolta no mercado colocou a Fiat no caminho da Marajó. O empresário lembra que a fabricante italiana de carros comprou a estatal de caminhões brasileira e virou a Fiat Diesel Brasil S/A, que acabou se tornando o grande negócio da sociedade. “E, nós, da Marajó, emitimos em primeiro de novembro de 1976 a primeira nota fiscal de automóvel: o Fiat 147”, recorda, com orgulho.

No ano seguinte, Flávio Meneghetti aproveitou para correr atrás de um projeto que seria o primeiro consórcio de carros da Fiat no mundo. Ele procurou na época três revendedores no Paraná – em Maringá, Paranavaí e Cascavel, para dar o pontapé inicial na empreitada. “As negociações empacaram por causa do nome, que seria Marajó. Expliquei que esse não seria o problema e poderíamos mudar. Já que estávamos unidos, chamou-se União. Assim toparam vender nosso consórcio.”

A partir daí, o empresário acompanhava de perto cada cidade que abria uma concessionária para vender os carros da marca italiana. Até a metade dos anos 80 o Consórcio União tinha revendedores em Campo Mourão, Toledo, Foz do Iguaçu, Guarapuava, Ponta Grossa e Curitiba, além de cidades no Estado de São Paulo como Assis, Presidente Prudente, Bauru, Campinas e até na capital paulista. Sem falar do Rio de Janeiro. “Depois disso chegamos a comprar consórcios em Uberlândia e Cuiabá. Assim, o consórcio União cresceu”.


Liderança e visão de futuro


No final da década de 80, Flávio consolida sua atuação na marca Fiat. Ele assume a vice-presidência da Associação Brasileira de Concessionárias Fiat (Abracaf) entre 1989 e 1991. Em 2004, desfez a sociedade com os outros empresários. As família Accorsi e Montosa ficaram com o Consórcio União. Já a família Meneghetti, que tem Flávio e os irmãos Cláudio e Madalena como sócios, ficou com a Marajó Automóveis.

Atualmente, Flávio se dedica a projetos no mercado imobiliário. Em 2014 lançou um empreendimento na região norte de Londrina. Os três filhos, Flávia, Eduardo e Felipe estão à frente da Marajó que possui duas lojas: uma na Avenida Tiradentes outra na Higienópolis.

Agraciado com o título de Cidadão Honorário de Londrina no ano passado, Flávio é uma liderança ativa e influente no empresariado local. É um dos idealizadores do Plano de Desenvolvimento de Londrina (PDI), de 1992 a 1994. Também criou o Movimento Londrina Competitiva, que modernizou a Prefeitura de Londrina nos anos de 2010 e 2011. E se dedica a negociação de uma união de forças com ACIL, Sociedade Rural do Paraná (SRP) e outras entidades em apoio ao prefeito Alexandre Kireeff (PSD) na duplicação da PR-445, sentido Londrina-Mauá, para desafogar o gargalo da industrialização local.


Paschoal, o frentista que virou empresário


O espírito empreendedor de Flávio Meneghetti vem da família. O primeiro negócio de seu pai, Paschoal Meneghetti, foi comprar um caminhão Studebaker, em 1948. Segundo Flávio, ele aprendeu a dirigir quando serviu o exército em 1945 e virou frentista três anos depois, quando se casou com Thereza Meneghetti. Neste ano nasce o primeiro filho do casal, Flávio Meneghetti, em Cândido Mota.

Depois de passar uma temporada em São Paulo fazendo fretes, a família mudou-se para Assis e Paschoal passou a trabalhar para a Irmãos Breve transportando combustível. Em 1954, chegou em Londrina e dois anos depois já tinha três caminhões e era representante da Texaco na região. “Isso foi o ponto da virada da vida dele. Quando deixou de ser um motorista de caminhão para um pequeno empresário. Foi criada a transportadora Meneghetti, em 1956.”

Nessa época, Pascoal se aproximou de um funcionário da Texaco que viria a ser seu sócio: Elias Montosa. “Meu pai tinha o terceiro ano primário que ele cursou na roça. Ele era um homem muito inteligente, mas com pouco estudo. Isso o Elias tinha. Ele era o caixa. Mexia com todo o dinheiro. Nisso, virou sócio de meu pai”, conta Flávio.

Pascoal Meneghetti faleceu em setembro de 2010, aos 89 anos de idade.