24/03/2015 00:00:00 PIB de 2015 cai 1% apesar de revisão, prevê Ibre

Fonte: Valor Econômico

A revisão das Contas Nacionais com base em padrões internacionais pode elevar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012 de 1% para algo entre 1,5% e 2%, mas dificilmente levará a alguma alteração significativa nos resultados de 2013 e 2014 e tampouco muda o cenário de 2015. A avaliação é do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre­FGV), que mantém sua estimativa de queda de 1% para o PIB neste ano, assim como a perspectiva de estagnação para o ano passado.

Na edição de março do Boletim Macro, divulgada com exclusividade ao Valor, a coordenadora técnica do documento, Silvia Matos, e o pesquisador Vinícius Botelho observam que grande parte do maior crescimento real do PIB em 2011 ­ que passou de 2,7% para 3,9% ­ veio da revisão de 0,1% para 2,2% no avanço da indústria de transformação.

A taxa mais robusta deste componente do PIB, segundo eles, reflete a incorporação dos dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA), e diverge bastante da trajetória da Pesquisa Industrial Mensal ­ Produção Física (PIMPF), que mostrou alta de 0,3% da atividade do setor.

Como, porém, a metodologia dessa pesquisa também foi alterada e, depois de então, a PIM passou a caminhar mais próxima da PIA, e o PIB de 2013 em diante já foi construído a partir da “nova PIM”, o desempenho da economia naquele ano, e também em 2014, não deve ser afetado por grandes mudanças na evolução da indústria.

Isso deve ocorrer apenas em 2012, ano em que, devido à inclusão da pesquisa anual do setor nas Contas Nacionais, a queda do PIB da indústria de transformação deve diminuir de 2,4% para 1%, o que pode acrescentar 0,4 ponto à taxa de crescimento do PIB total.

“A desaceleração do período Dilma Rousseff permanece, mas talvez fosse um pouco pior sem a incorporação das mudanças metodológicas no PIB”, diz Silvia. Em seus cálculos, após as alterações no sistema de Contas Nacionais, a média anual de crescimento econômico no primeiro mandato da presidente pode aumentar de 1,6% para 2%, mas a melhora deve ficar concentrada nos anos de 2011 e 2012, o que acentua a perda de fôlego da atividade no período recente.

Para ela, a expansão um pouco maior registrada de 2011 a 2014 não é muito relevante e não muda o histórico de deterioração da política econômica no último quadriênio, processo que levou ao aumento da inflação e do déficit em transações correntes mesmo em meio a um quadro de desaquecimento da atividade. Esses desequilíbrios começaram a ser corrigidos agora, mas não serão totalmente revertidos em apenas um ano, avalia Silvia.

Depois da estabilidade prevista para o PIB em 2014 ­ a melhora na trajetória da construção civil como resultado das revisões metodológicas pode acrescentar, no máximo 0,2 ponto ao resultado , o Ibre segue trabalhando com retração de 1% para a atividade neste ano. A coordenadora pondera, no entanto, que as perspectivas para este ano na verdade pioraram: a previsão anterior de queda foi mantida, mesmo depois de o instituto transferir a expectativa de racionamento de 5% do consumo de energia de 2015 para 2016.

Segundo a economista, a probabilidade de uma restrição energética diminuiu devido ao forte aumento previsto para as tarifas de eletricidade, de cerca de 60%, e ao quadro recessivo, que deve levar a um recuo de 0,6% do consumo das famílias. Em 2016, porém, o uso de fontes energéticas mais caras para evitar o racionamento agora vai gerar correções ainda mais proibitivas nas contas de luz, o que tende a enfraquecer o consumo e os investimentos, ao mesmo tempo em que o problema estrutural de redução da oferta não será sanado.

Além da questão energética, a pesquisadora do Ibre acrescenta que a Petrobras “é outro elefante na sala do governo” que ainda deve atrapalhar o crescimento mesmo após 2015. “Mesmo que a questão fiscal seja resolvida, “não consigo ver um cenário de crescimento em 2016 com todos os indicadores melhorando”.