13/01/2020 08:14:42 Planejar para continuar crescendo

Fonte: Marco Feltrin - Revista Mercado em Foco/ACIL 

A virada do ano no calendário sempre vem acompanhada de promessas e planos na vida pessoal. Para as empresas não é diferente: hora de planejar o que vem pela frente, analisar estratégias, quem sabe promover mudanças e até sair da famosa “zona de conforto”, apostando em reinventar seu negócio.

Mas por onde começar? O primeiro passo, segundo especialistas, é olhar no retrovisor, e ter um mapeamento muito claro do status em que a empresa se encontra. “O ideal é fazer um diagnóstico completo. Não tem como projetar, crescer e ampliar, sem entender onde a empresa está. É colocar a empresa em cima da balança e olhar para todos os indicadores: faturamento, tamanho da equipe, estrutura, investimento e orçamento. Preciso saber o que eu tenho hoje para saber o que eu posso ter lá na frente”, orienta o consultor empresarial Murilo Gomes.

Mas não basta só olhar para dentro da empresa. É preciso estar atento a exemplos bem-sucedidos no mercado, independente da área de atuação. “É hora de visitar empresas, conversar com outros empresários, conferir o resultado de oportunidades criadas por quem apostou na inovação e cresceu com isso. Absorver boas ideias e olhar cenários positivos para usar isto dentro da sua empresa”, aposta Hélio Terzoni, diretor de uma empresa de consultoria que leva seu nome, com 30 anos de experiência no setor industrial, e também diretor da ACIL.

Ele alerta, porém, que o planejamento não é algo a ser feito apenas no início do ano. “É preciso ter uma visão constante de reestudo da empresa, o ideal é que seja a cada trimestre. Hoje está muito difícil enxergar o futuro em um prazo de um ano ou mais. Por isso, a recomendação é para um planejamento de prazos curtos. Talvez esperar o começo do ano, quando há menos circulação de capital, um eventual momento ruim de venda, que pode contaminar negativamente seu processo de melhoria e inovação”.

No trabalho de ‘leitura’ da empresa, os indicadores precisam ficar claros para servirem de base para a definição de metas. Hora de medir qual é o custo, analisar se é possível otimizar processos, trazer tecnologia para reduzir certos gastos, conferir a situação do estoque de giro. Tudo para que a meta seja atingível e, principalmente, realista. “Não adiantar querer crescer 50% de uma hora para outra. Vai ter investimento para isso? Mais colaboradores, equipamentos mais modernos? Organicamente, é pouco provável que sem investimento você dobre de tamanho. É onde eu vejo o empresário errando mais. Ou ele não planeja, ou planeja de forma muito sonhadora, só para ter um número, atender a vontade do dono”, exemplifica Murilo Gomes.

Hora de questionar

O planejamento também é o momento certo para o empresário questionar suas escolhas e decisões. Indicadores no azul não significam que tudo está perfeito dentro da corporação. Para Hélio Terzoni, o excesso de confiança pode até ser uma armadilha. “Com as informações na velocidade em que estão hoje e o mercado mudando constantemente, se você não se questionar, alguém faz isso no seu lugar e se movimenta mais rápido que você. Muitas vezes o empresário está fazendo tudo certo, mas quer continuar neste modelo e não percebe as mudanças, por falta de acompanhamento, planejamento e estudo. Esquece de olhar o futuro e acaba deixando de mudar hoje para fazer isto tardiamente amanhã”.

Se é preciso questionar, é necessário fazer isto de várias frentes. De acordo com Murilo Gomes, ouvir opiniões diversas ajuda a ampliar a visão de mercado do empresário. “O questionamento não pode ser unilateral. É o momento de chamar todas as pontas de contato do negócio. Questionar não só com a visão de dono. Ouvir o vendedor, o estoque. Chamar dez clientes para um café da manhã, uma conversa na empresa. O cliente não vai determinar, mas pode trazer um apontamento importante. Ouvir o mercado, os fornecedores, vizinhos de shopping, de parque industrial. Se eu quero crescer 30% e meu vizinho 5%, algo está errado. Definitivamente, não é uma tarefa para ser feita a portas fechadas na sala da empresa”.

Outro passo importante, segundo Gomes, é abrir espaço para inovação. Se existe uma hora para arriscar, é durante a etapa de planejamento. E se engana quem pensa que inovar é sinônimo de altos custos. “O empresário deve criar um ambiente inovador. Não é ter uma grande ideia. É um movimento constante, em que você faz uma pausa para pensar seu negócio. Para grandes empresas, inovação pode ser apostar em uma nova tecnologia, um equipamento, um sistema tecnológico. Para as menores, pode ser ir para São Paulo e participar de uma feira do setor, uma palestra. Criar uma caixinha de sugestões, fazer uma reunião com funcionários para melhorar processos já pode ser considerado uma inovação”.

Zona de conforto

É mais comum do que se imagina uma empresa, depois de um certo tempo, se estabelecer no mercado e cair na chamada zona de conforto. A estagnação acontece e muitas vezes o empresário demora a perceber que os concorrentes estão crescendo e ele ficou para trás. Aí vem o desespero, acompanhado de atitudes atropeladas que podem colocar em risco tudo o que foi conquistado até agora.

“Você cria o hábito de fazer a mesma coisa, do jeito que sempre fez. Em momentos difíceis, fica difícil arriscar, tanto financeiramente quanto fazer mudanças. Mas não pode esquecer que você chegou onde chegou porque lá atrás decidiu arriscar, inovar e fazer diferente, mesmo que naquele momento estivesse com menos condição de conhecimento e financeira do que você tem hoje. Então por que não arriscar da mesma forma que você fez lá no começo?”, questiona Terzoni.

Para Murilo Gomes, a tal zona de conforto também pode estar ligada a uma sobrecarga nos ombros do empresário, mas há saída para isso. “As questões da empresa ficam centralizadas nele. Principalmente na pequena e média, depende dele para quase tudo. A receita chama-se desenvolver pessoas. Não tem como crescer só nas costas do dono. A agenda dele tem 24 horas, igual a de todo mundo. Por isso o grande desafio é desenvolver pessoas: contratar bem, treinar. É um processo ingrato. Você vai ver que muitos abandonam a empresa pós-treinamento. Mas se é ruim treinando, imagina sem! Por isso é preciso criar lideranças para todos os setores. Elas vão fazer a base para sua empresa crescer sem ficar refém só do dono, que está muitas vezes preso em questões burocráticas e não tem tempo de planejar. Formando líderes, ele vai ter essa condição de delegar mais e espaço.”

Outro ingrediente que joga contra neste momento de pensar diferente e inovar é o medo de errar, que parece fazer parte da cultura do brasileiro. Para nós, é mais fácil e confortável apontar a falha do outro do que aprender com ela.

“As pessoas precisam entender que inovação acontece no erro. Estratégia boa é estratégia na prática. Você tem que colocar em prática logo, para errar logo e aprender logo. O erro tem um papel fundamental na inovação. O que não pode é errar a mesma coisa sempre”, orienta Gomes, lembrando que existem dois tipos de erros: o fatal e o não fatal. “O primeiro, mata a empresa. O segundo faz ela aprender, e 99% dos erros são não fatais. Então é muito importante ter um ambiente que promova as ideias, inovações e perceba o erro como algo positivo, no sentido de melhorar”.

Repassando o planejamento

Finalizado o período de planejamento, chega a hora de comunicar todo o corpo de colaboradores quais serão os próximos passos e onde a empresa pretende chegar. Uma etapa fundamental para que o resultado final seja satisfatório.

Muitas empresas apostam na realização de convenções, onde são apresentados os resultados do ano anterior e as novas metas. “Neste momento é preciso sensibilizar para definir o propósito. Empresa que não tem para que lutar, não chega a lugar algum”, define Murilo Gomes.

Mas não para por aí. As metas e estratégias precisam estar fixadas e visíveis para todos durante todo o ano. “Depois da reunião, da convenção, precisa colocar esse planejamento de forma visual clara, em quadros, televisores, boletins informativos. Nós temos a tendência de fazer listas e esquecer delas depois. Imagina na empresa. Então a meta tem que estar sempre visível. Errou a meta? Apaga o quadro e põe de novo até fixar”.