29/08/2014 00:00:00 Conheça-me e conheça aqueles que vivem em mim

 

Nesses meus tempos,

que junto sem contar idades

nem me preocupar

com tradições ou preconceitos,

sempre fui meio senhora, meio menina,

meio assim campo aberto aos carinhos,

mansos ou violentos,

ateus ou religiosos, daqueles que

amassaram minha carne fértil, viscosa,

cor de fogo, cor de desafio, cor de todas as cores.

 

Eu os convidava estirada no espigão,

um barreiro vulcânico:

venham a mim de onde vierem,

a cavalo, a pé, navegantes,

pelos matas ou águas barrentas,

príncipes, lavradores, familiares ou errantes,

pessoas boas ou vida-tortas,

venham.

 

Os primeiros vieram,

levantaram ranchos de palmito,

fincaram estacas, abriram talhos

e me deram adjetivos

os mais estranhos, os mais loucos

como a febre de amor que sempre lhes causei,

do primeiro luar até hoje:

maliciosa, perturbadora, receptiva,

visguenta, rude, roxa, vermelha, linda, suja...

 

Apaixonaram-se, e tanto,

os primeiros e muitos outros,

que podia eu fazer a não ser retribuir

com mais pigmentos do coração?

A não ser lhes sujar as barras das calças, das saias

das casas e do fundo de suas almas

entregues a este louco amor?

 

Primeiro, me vestiram de algodão

depois, me vestiram de café florido,

fiquei sempre muito bonita,

com o suor e as lágrimas daqueles

que regavam meu chão ou

daqueles que contavam lorotas

em minhas noites ébrias de paixão

ou daqueles que sangravam dores

 

Fiquei sempre linda,

caipira ou senhora do mundo,

fui sendo feita na velocidade dos anos

fui sendo eu, meio assim sem cronologia:

 

nos varais vermelhos,

na poeira endiabrada,

na meleca das maças,

no palito de limão,

no barro do lago,

no ferrão dos marimbondos,

na xepa da feira,

nas cicatrizes do capotão,

no frêmito dos gols,

na gritaria das cigarras,

na angústia do poente,

no morno do vento,

na ponta do canivete,

no fio da navalha,

na sanha da faca,

na paçoca de amendoim,

no salgado da pipoca,

no doce da tubaína,

no riso do circo,

na palhaçada dos meninos,

no encardido das unhas,

na farra das matinês,

nos chifres dos rodeios,

nas perobas e no aroma verde das matas,

na penugem que me sobrou do bosque,

no catecismo ensebado,

na música caipira,

na rouquidão do rádio,

no rangido líquido do poço,

nos concursos de emissora,

na luz das manhãs,

no azul estupendo dos dias,

na pintura das nuvens,

na arte celestial dos germes,

no badalar dos sinos,

no limbo dos paralelepípedos,

nas curvas lanhadas dos postes,

nas cercas e nos muros,

no perfume do beira-de-linha,

na lâmina do capim,

no latifúndio do espaço,

no bico de anu torrado,

na bosta das mulas,

no roubo de melancia,

na dor do tiro de sal,

no ardume da ferida,

no podre do dente,

no arame farpado,

na borracha do estilingue,

na caixa de engraxate,

no alvo das vidraças,

no medo do cemitério,

nos mistérios da zona,

nos segredos das escolas,

na alegria dos balaios-de-puta,

na vadiagem das noites,

na buzina enferrujada dos calhambeques,

na meninice das festas,

no laquê dos cabelos,

no coração das paixões,

nos temperos humanos,

na loucura dos sentimentos,

no tomate das lâmpadas,

na gritaria dos pardais,

na languidez dos córregos,

no esguio dos lambaris,

na búrica da terra,

nas mãos tingidas,

nos barracões entupidos de sacos,

nos sacos sujos da venda,

nas línguas de açúcar cristal

na goma arábica das figurinhas,

na cola de farinha de trigo,

no escândalo das matracas do padeiro,

no berreiro das maritacas,

no corte do açougueiro,

na preguiça da carroça,

no litro de leite de vidro,

no estalar de bombinhas,

no olhar imperial do relojão,

no sangue do dedão arrebitado,

no coleirinha na gaiola do pasto,

na gordura do bar da rodoviária,

nos rachados dos calcanhares,

na chuva roxa,

no grude do barro,

na mata-junta magrela,

na sola da botina,

no apito metálico e dolorido do trem,

nos trilhos oleosos,

no corte de aço e dormentes,

na liberdade dos quintais,

na tosse braseira do cigarro,

nas dores dos hospitais,

no crepitar das fogueiras,

nas minhas tribos reunidas,

na molecagem da vida,

na saliva do lambe-lambe,

na sépia das fotos

 

tanto e tanto e muito mais

eu trago no peito,

plena de substantivos e adjetivos,

agora informática e na modernidade

nos olhos rubros e ardidos de saudades

eu trago minha memória

congelada nas imagens do papel

 

Não tenho sobrenome

nem referência,

minha mistura de gentes e línguas

é uma santa e provocadora querência.

Só tenho um nome

e uma sina:

ser pra sempre menina,

tendo oito ou oitenta –


Londrina