16/04/2018 08:10:40 Quando pulsa uma nova chance

Fonte: Revista Mercado em Foco - ACIL - Por Fernanda Bressan

África do Sul e Brasil têm o pioneirismo quando se fala em transplante de coração. Em 3 de dezembro de 1967, o primeiro procedimento deste porte era realizado na África.

Meses depois, em 26 de maio de 1968, o Brasil entrava na lista com o segundo transplante de coração realizado no mundo. A equipe médica liderada pelo cirurgião Euryclides de Jesus Zerbini fez o procedimento no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

O receptor foi o lavrador mato-grossense João Ferreira da Cunha, conhecido como João Boiadeiro, de 23 anos, que possuía avançada doença do miocárdio e insuficiência cardíaca, com alto risco de morte. O doador foi Luis Ferreira de Barros, um jovem que morreu atropelado.

Nestes 50 anos, muita coisa avançou, entraram medicamentos para reduzir os índices de rejeição ao órgão transplantado e o sucesso do procedimento se elevou, salvando vidas ao redor do mundo.

Antônio Tavares da Silva, 61 anos, é um exemplo disto. Desde 2001 ele vive com o coração de outra pessoa. Esta história começa bem antes, quando ele tinha 45 anos e foi doar sangue para um parente que estava precisando. Quando foi pegar a carteirinha de doador, ouviu do médico que ele era portador da Doença de Chagas. “Estava no auge do vigor e da vida financeira, não sentia nada. No início, fui tocando a vida normal, gostava de jogar futebol, até que um dia, uns dois anos depois disto, quando fui jogar bola, bateu um cansaço e vi que não estava bem”, recorda.

Silva buscou consulta com uma cardiologista e começou um tratamento clínico para a doença de Chagas, que foi eficiente durante 8 anos. Até que chegou um ponto em que o transplante era a única alternativa para sobreviver. “A coisa ficou tão feia que no fim de 2000 a minha família inteira veio passar o fim de ano comigo porque achou que eu não passaria daquele ano”, conta. Mas um coração novo entrou nesta história e deu a ele a chance de seguir semeando alegria no mundo.

“Em 2 de janeiro de 2001 entrei na fila da Central de Transplante. Fiquei 7 dias internado, tive alta, voltei a trabalhar, mas vi que não aguentava mais. Em maio do mesmo ano me encostei”, conta.

Durante o período em que ficou na fila de espera ele não pensava no transplante. Era algo muito distante e pouco falado. Até entrou na fila desacreditado. Até que chegou o dia 20 de outubro de 2001. “Neste dia acordei muito inchado da cintura para baixo, me sentindo muito mal. Deitei no sofá e às 3 horas da tarde o telefone tocou. Era da Santa Casa falando que tinha um coração para mim. Foi bom e foi difícil. Pensei: tenho este coração que funciona mal, mas funciona, e agora? Conversei com minha esposa e ela disse que esta era uma decisão minha. Então, decidi tomar um banho e fui para a Santa Casa. A equipe já estava me esperando, foram feitos os preparativos e no dia 21 foi feito o transplante. Acordei na segunda, dia 22, sem saber onde estava, até que levei a mão ao rosto e vi que estava entubado, daí me lembrei que estava no hospital”.

Sem muito tempo para pensar, Silva ganhou um coração novo e, com ele, a vida de volta. Para ele, a família que doou o órgão, vindo de um jovem de 19 anos, tem sua eterna gratidão. “Esse pessoal que tem este gesto grandioso de ser um doador merece nosso aplauso e como tem gente precisando de pessoas assim”.

Nos últimos 16 anos, o “sobrevivente” passou a aproveitar ainda mais cada segundo. “Tive esta nova oportunidade de viver, meus filhos eram adolescentes na época e hoje já estão formados e tenho três netos. Passei a dar valor a tudo”.

E ele cuida muito bem do coração recebido. “Dá trabalho cuidar deste coração, tomo medicamentos, tenho uma alimentação regrada, faço exercícios, vou ao médico a cada 6 meses”, elenca. Sobre a vida nova, ele garante que não mudou o jeito de sentir. “Não passei a torcer para outro time, continuo casado com a mesma mulher, há 36 anos, só fiquei mais sensível”, brinca.

Prevenção desde a infância

O coração é, de fato, nossa máquina de bombear vida. Cuidar dele é fundamental em todo tempo. Cirurgião cardíaco e membro da equipe que realiza transplantes de coração em Londrina, Dr. Rafael Santoro destaca que desde criança há formas de cuidar deste órgão tão essencial à vida. “Muitas das doenças do coração se iniciam na infância, é muito importante cuidar da alimentação e da prática de atividade física na criança, moldamos nossa memória muscular e do paladar desde o início”, destaca.

As doenças cardíacas são a maior causa de morte em todo o mundo. “Sabemos que há doenças que predispõe ao aparecimento das doenças do coração, como diabetes 1 e colesterol. A obesidade também é fator de risco e hoje temos 30% das crianças acima do peso. São fatores que vão influenciar na vida adulta, elevando o risco de uma doença cardiovascular. Por isso o cuidado desde a infância faz muita diferença”, alerta. Segundo ele, sinais como cansaço excessivo ou falta de ar, independente da idade, merecem ser investigados.

Em regra geral, a recomendação é que se busque um cardiologista para check-up anual após os 40 anos, mas há momentos em que esta rotina deve ser antecipada. “Quem tem histórico de doença cardiovascular na família deve antecipar esta ida, começando aos 30 anos. Também é recomendado que se vá ao cardiologista antes de iniciar mudanças na rotina, como iniciar uma atividade física. O risco de morte súbita durante um exercício é de 1%, é baixo, mas ele existe e pode ser prevenido se a pessoa souber que tem uma doença cardíaca não diagnosticada até então”, orienta.

50% de chance

Sobre os transplantes, Santoro aponta que eles são o tratamento para doenças que causam insuficiência cardíaca. “Quando o paciente já passou por todas as terapias para uma doença do coração e ele não consegue ter a melhora na qualidade de vida, o transplante é indicado”, resume. Atualmente, em todo o mundo, o índice de sucesso da cirurgia é de 50% de sobrevida nos cinco primeiros anos. Em grandes centros, incluindo Londrina, esse percentual é maior. “É uma cirurgia resolutiva”, pontua o especialista.

Em 1994 foi realizado o primeiro transplante de coração em Londrina. Até hoje, já foram feitos 56. A Irmandade Santa Casa é o único hospital da cidade credenciado pelo Ministério da Saúde para este serviço.

Cabe lembrar que um paciente transplantado sempre terá que ter cuidados especiais e que há formas, muitas vezes, de mudar este desfecho, como evitar o tabagismo, sedentarismo, consumo elevado de álcool e obesidade, por exemplo.

E é possível começar este cuidado desde a vida intrauterina. Exames do pré-natal podem identificar precocemente uma doença congênita do coração e fazer com que as ações tomadas logo após o parto possam salvar uma vida. “Hoje podemos ver previamente o coração de uma criança ainda no útero, como no ultrassom morfológico, que faz parte do pré-natal. Em alguns casos, quando este exame detecta alguma doença ou sinal de que o coração pode ter alguma anomalia, é indicada a realização do exame chamado ecotransfetal, exame feito por cardiologistas pediátricos que pode diagnosticar doenças congênitas. Desta forma, podemos orientar a mãe para que tenha o parto em um hospital com UTI pediátrica e também ter a presença de especialistas para realizar a cirurgia quando ela é necessária logo nos primeiros dias de vida”, explica o especialista.