07/10/2014 00:00:00 MARKETING DIGITAL – Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, mostra como conquistar a classe média

Por Vinícius Bersi


Entre 14 e 16 de outubro a ACIL realiza a III Semana do Empreendedor Digital. O evento, maior da área em Londrina, tem o objetivo de conectar os empresários às oportunidades disponíveis no universo online. “É chegada a hora de perceber o e-commerce como uma chance de sucesso de um negócio e não apenas como um concorrente”, destaca Barbara Della-Libera, analista de Marketing da ACIL.


Durante a Sed vão ser realizadas palestras com profissionais reconhecidos na área de Marketing Digital; Daniel Zanco, da Universo Varejo, Felipe Osório, da Google e João Kepler, da Anjos do Brasil estão entre os palestrantes. Além das palestras, os participantes realizam oficinas de estratégia de Marketing.


O encerramento no dia 16 é com Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, que se dedica a pesquisas sobre o comportamento e desejos da classe C. Meirelles vai apontar os caminhos para os empresários se aproximarem do segmento de mercado que atualmente concentra 108 milhões de brasileiros. A classe média responde pelo consumo de R$ 1,24 trilhão por ano.


A Mercado em Foco antecipa parte dessa conversa na entrevista abaixo. Boa leitura!



Mercado em Foco: Como as vendas pela modalidade e-commerce se distribuem entre as classes sociais? Qual é o peso da classe C?


Renato Meirelles: A maioria que compra pela internet é jovem, a geração mais conectada, tem entre 16 e 24 anos e pertence à classe C. Em 2013, 11,3 milhões de pessoas da classe média fizeram compras pela internet.


Mercado em Foco: O que o consumidor da classe média espera da empresa que vende pelo e-commerce?


Renato Meirelles:A classe média vive num momento de otimismo. E, para se comunicarem com o consumidor emergente, as empresas precisam buscar uma linguagem que valoriza suas conquistas, respeite sua visão de mundo e dialogue com seus anseios e valores.


Mercado em Foco: Os empresários já perceberam a importância de se conectar com esse público também pela Web?


Renato Meirelles: A democratização do consumo no Brasil, alcançada graças à expansão do crédito, é uma das maiores oportunidades para as marcas conquistarem novos públicos, principalmente, a classe média, que hoje em dia tem acesso a bens que antes eram considerados inalcançáveis.


Mercado em Foco: As empresas conhecem o público? Há preconceitos em relação a este consumidor?


Renato Meirelles: O produto ou serviço que mostrar relevância ao consumidor tende a sair à frente. Sendo assim, é indispensável entender os valores destas pessoas e dialogar sem preconceito com a classe média que compra, e compra bem.



Mercado em Foco: Qual a importância de iniciativas que aproximam o empresário do mundo digital como a SED (Semana do Empreendedor Digital), promovida pela ACIL?


Renato Meirelles: Entender as várias faces deste público é fundamental para que empresas e o poder público desenvolvam estratégias mais eficientes de Marketing e Comunicação, afinal estou falando de mais de 100 milhões de pessoas.



Mercado em Foco: Pode-se dizer que o crescimento da classe média no Brasil já está estagnado e que a tendência agora é de desaceleração?


Renato Meirelles: A classe média se consolidou e continuará em expansão nos próximos anos. Hoje, temos uma classe média mais robusta, formada por cerca de 114 milhões de pessoas, que movimentam por ano cerca de R$ 1,24 trilhão. Em 2023, 58% da população brasileira deverá pertencer à classe média.



Mercado em Foco: Nesse cenário, o que muda no comportamento do consumidor, em especial no ambiente online?


Renato Meirelles: O acesso à informação e o aumento do consumo tornaram os brasileiros mais exigentes e conscientes dos seus direitos como consumidor. Quando compra um produto com defeito, as pessoas reclamam e usam a internet como canal para reclamar da marca.



Mercado em Foco: O consumidor que passou a ter acesso ao crédito nos últimos anos já tem uma relação mais madura, mais racional, com o dinheiro?


Renato Meirelles: Com a expansão da classe média, a oferta de produtos, serviços e soluções tem aumentado significativamente. É importante entender que, apesar do aumento, a renda disponível tem uma limitação e os espaços no “bolso” do consumidor estão cada vez mais disputados. Mas não é por isso que o consumidor da Classe C deixa de valorizar um produto de qualidade. Ele não só valoriza, como o compra.


Mercado em Foco: O endividamento das famílias é preocupante? E a inadimplência?


Renato Meirelles: Nossas pesquisas mostram que os brasileiros acreditam que está mais difícil pagar as contas. A maioria não consegue comprar hoje o que comprava ano passado gastando o mesmo valor. Inflação é sempre muito ruim, mas enquanto tivermos aumento real do salário mínimo a classe média está consolidada.



Mercado em Foco: Uma das críticas feitas a este modelo de inclusão social pelo consumo é de que não há promoção da cidadania. Você concorda?


Renato Meirelles: Nos últimos anos, o Brasil tem passado por uma das mais profundas mudanças de sua história. A pirâmide de classes econômicas se transformou em losango com o crescimento da classe média e isso favoreceu a classe C ser mais exigente, principalmente no que diz respeito aos serviços públicos.



Mercado em Foco: Existe a ideia de que o bem de consumo como a máquina de lavar chegou para quem estava privado pela pobreza mas que os bens culturais e a educação ainda não fazem parte da rotina da nova classe média. Qual é o valor dado pela classe C à cultura e à educação?


Renato Meirelles: O brasileiro em geral não encara educação como gasto mas, sim, como investimento, e acredita no retorno disso. Ou seja, estudou mais, tem salário melhor. Por mais que cada vez seja mais caro investir em educação, também é verdade que é um investimento com retorno garantido. Hoje, na classe C, temos jovens mais escolarizados do que os pais. Eles são os novos formadores de opinião da classe média.



Mercado em Foco: Na agenda política quais são as questões que mais preocupam a classe C? O que se espera dos próximos governantes?


Renato Meirelles: Os brasileiros estão mais preocupados como será a sua vida no futuro do que com os benefícios já conquistados até agora. Querem ter a segurança de que a vida continuará melhorando. É muito claro que toda a população quer um Brasil diferente do que está hoje.


Mercado em Foco: Você e o Celso Athayde estão lançando o livro “Um país chamado favela”. Como foi o processo de produção do livro?


Renato Meirelles: Além da pesquisa quantitativa, fizemos pesquisas qualitativas nas favelas brasileiras, buscamos entender como os moradores enxergavam a vida nas comunidades em que vivem, quais são os seus anseios e demandas. Também treinamos mais de 100 moradores para que pudessem trabalhar em etapas da pesquisa. Da preparação ao término da pesquisa foram mais de seis meses de colaboração.



Mercado em Foco: Que respostas o livro traz? O que você destacaria?


Renato Meirelles: Chamou muita a nossa atenção quando descobrimos que 95% dos moradores das favelas são felizes e a grande maioria não tem vontade de deixar a comunidade onde vivem para morar em outro lugar nem se a sua renda dobrasse. Na favela, quando um precisa, todo mundo ajuda todo mundo. Eles são solidários. Os moradores são otimistas em relação ao futuro. E essa melhora está associada, principalmente, ao aumento da renda e da geração de emprego.



Mercado em Foco: O que existe de parecido e de diferente entre as comunidades que vocês visitaram? Qual é a diferença, por exemplo, entre uma favela carioca e uma favela paulistana?


Renato Meirelles: Apesar de muito heterogêneas, as favelas estão relativamente concentradas em torno das grandes cidades. Mais do que um fenômeno urbano, as favelas são um fenômeno metropolitano: 89% dos moradores de favelas estão concentrados em capitais ou regiões metropolitanas. Encontramos nas favelas um brasileiro feliz, trabalhador, que chama pra si a responsabilidade sobre a própria vida.