08/01/2016 00:00:00 Como encarar 2016?

Fonte: Lauriano Benazzi e Beatriz Amaro - Revista Mercado em Foco - ACIL


É senso comum que crises econômicas são cíclicas e planejamento e investimentos conscientes são necessários para atravessá-las ou sobreviver a elas. Para apontar tendências e avaliar o cenário para 2016, a revista Mercado em Foco ouviu três especialistas: Mario Nei Pacagnan, CEO da Litz Consultoria, Pesquisa e Conhecimento; Marco Aurélio Kumura, executivo na área de estratégia e marketing; e Carlos Eduardo Boni, professor de Economia na Universidade Norte do Paraná (Unopar). Eles traçam um diagnóstico da economia nacional e do arranjo produtivo local e apontam metas essenciais para o reaquecimento da indústria, comércio e serviços. Todas as avaliações têm em comum uma questão inquietante: e você, empresário, fez sua lição de casa para este ano?


“Devemos olhar mais para o mercado,  para nossos clientes, para os concorrentes, para o negócio em si e questionar pontos relevantes” (Mario Nei Pacagnan, CEO da Litz Consultoria, Pesquisa e Conhecimento)


A principal atitude a ser tomada pela empresa na crise é investir em conhecimento e informação. Mario Nei Pacagnan vai direto ao ponto. “Devemos olhar mais para o mercado, para nossos clientes, para os concorrentes, para o negócio em si e questionar pontos relevantes.” A inovação é um dos alicerces para o sucesso da empresa contemporânea, que não pode deixar de investir em treinamentos, sistemas de informação, pesquisas e novas tecnologias. “Hoje em dia é impossível conceber um negócio que não tenha uma estrutura de TI por trás”, ele avalia. “Em Londrina, a implantação do APL de TI já trouxe resultados positivos.”

Segundo Pacagnan, a falta de planejamento é um dos problemas culturais característicos do brasileiro, que “olha só o tempo da bonança”. “É um povo que acredita muito na sorte, no milagre, no improviso e acha que tudo vai dar certo.” Diante de um cenário de crise, não há mais espaço para improvisação. “O consumidor tem uma grande quantidade de escolhas à disposição e consegue acessar informações com facilidade. O empresário precisa ser efetivo em suas ações”, alerta.

A concorrência e a ansiedade dos consumidores exigem atenção, por parte do empresário, à perspectiva de renovação de seu produto ou negócio. Além disso, o diálogo dos gestores com suas respectivas equipes é de extrema importância para atingir o sucesso. “As pessoas gostam de ser lideradas por quem tem energia positiva e visão clara do que quer para o futuro da empresa”, explica o consultor.

O fim da crise está intrinsecamente ligado ao crescimento socioeconômico do País. Para que o Brasil cresça, Pacagnan diz que é preciso investir em educação, cultura e cidadania. “O que mantém um negócio em expansão é o investimento em conhecimento – isso ninguém te tira. A crise também é momento de aprendizagem.”


“O que fazer, como fazer, para quem fazer? Este modelo de negócio traz algum risco futuro? O consumo vai mudar? Para responder a isso em períodos de crise, é preciso inovar” (Marco Aurélio Kumura, executivo na área de estratégia e marketing)


Marco Aurélio Kumura, executivo da área de estratégia e marketing, reforça a importância do investimento em informação. “O empresário precisa estar bem informado para decidir. Nesse cenário de incertezas, quem sai na frente é quem toma decisões melhores, quem tem mais informações sobre produtos, processos e públicos.” Para ele, a crise é uma oportunidade para que o empresário repense suas ações – além do conjunto da economia, eventualmente os negócios de um determinado segmento enfrentam crises estruturais inerentes ao setor.

Para os empresários que buscam resultados acima da média, o planejamento é fundamental. Ao planejar, eles vão se deparar com dados estimulantes, como o poder de consumo do mercado interno, cuja classe média emergente é estimada em 100 milhões de pessoas. “Esse público vai consumir algum tipo de produto”, diz Kumura, que faz comparações com outros mercados. “Temos uma das maiores economias do mundo. O PIB do interior do Estado de São Paulo equivale ao PIB da Argentina. O PIB da Grande Campinas equivale ao do Chile, e o PIB do Bairro de Santo Amaro, em São Paulo, equivale ao do Uruguai.”

Dados como estes comprovam que há espaço para crescimento. Segundo Kumura, os empresários precisam levantar algumas questões com suas equipes: o que fazer, como fazer, para quem fazer? este modelo de negócio traz algum risco futuro? o consumo vai mudar? Para responder estas perguntas em períodos de crise, é preciso inovar. “Um dos pontos que pode levar ao sucesso é a mudança de mindset ('mapa metal' que abriga visões pré-concebidas), da forma de pensar, expandindo o leque de possibilidades e soluções”, explica.

Fazer uma análise crítica do portfólio da empresa faz parte do processo de reinvenção. “Se as pessoas passaram a consumir produtos mais baratos, será que o portfólio da empresa não precisa ser repensado? É uma oportunidade de tirar produtos de linha e aumentar a produtividade da fábrica”, destaca.

Para formar uma equipe competitiva, os empresários precisam aplicar seu capital em “inteligência humana”. “Não adianta ter apenas dinheiro, fábricas e máquinas. É importante trazer os melhores talentos”, salienta Kumura. Outro fator que merece atenção é a flexibilidade da fábrica. Para Kumura, “se o empresário se foca apenas em um segmento e este segmento vai mal, toda a cadeia é quebrada”. Os casos de empresas – e cidades, inclusive – que segmentaram sua indústria e tornaram-se vulneráveis às oscilações do mercado são muito comuns.

Em 2016, é fundamental que o empresariado aja de acordo com o que o momento vai exigir dele. “O que define um empresário é a capacidade de decidir. Não adianta olhar para a crise e dizer que a situação está ruim. Crises vêm e vão e, quando acabam, é preciso estar melhor adaptado para sair à frente. As demandas reprimidas devem ser atendidas”, avalia o executivo.


“2016 marcará uma fase de recuperação para quem fez a lição de casa e está preparado” (Carlos Eduardo Boni, professor de Economia na Unopar)


Para Carlos Eduardo Boni, 2016 será um período de transição e o empresário que se ajustar terá mais vantagens competitivas. “Este ano marcará uma fase de recuperação para quem fez a lição de casa e está preparado”, diz. Boni salienta que, nos últimos tempos, marcados pela crise, o perfil do público consumidor mudou, ou seja, tornou-se mais crítico – as informações estão por toda parte, portanto, “é importante que o ofertante do produto acompanhe essas mudanças”.

Por parte do empresariado, é necessário o ajuste dos processos de produção. “Inovação é fundamental”, propõe, e destaca que parcerias com instituições de fomento tecnológico são tão importantes quanto investir em conhecimento. “A indústria será competitiva a partir do momento em que se tornar inovadora.”

Além do público consumidor interno, o empresariado precisa estar atento à expansão dos mercados. “Nossa capacidade produtiva é muito maior do que nossa capacidade de consumo. Acordos empresariais são essenciais para que o empresário maximize sua produção”, explica o economista, que aponta que as exportações têm salvado a balança comercial do Brasil há bastante tempo.

Em Londrina, “pensar na cidade é pensar em segmentar o mercado. A indústria ainda é tímida, e é importante investir em empreendimentos que deem condições para a geração de empregos no setor”, ressalta Boni. O professor explica que as cidades com maior número de indústrias tendem a ter uma população com salários melhores, protegida das intempéries econômicas. “A renda que deriva de serviços é menor e mais frágil em períodos de crises.”

Ainda que o momento atual seja de aflição e angústia para a economia nacional, Boni defende que “há condições para sair da crise”. “São sacrifícios que cada um terá que fazer pelo seu negócio – cortar custos e reduzir gastos, mas, em contrapartida, manter-se no mercado.”


Ruim para uns, bom para outros


Se a crise afeta alguns setores da economia, em compensação, beneficia outros. Marco Aurélio Kumura considera que os segmentos voltados à exportação terão bons resultados, tais como as áreas de autopeças, de reposição de peças para manutenção de máquinas e de equipamentos industriais. Na rota de fuga da crise, segmentos ligados à tecnologia e ao desenvolvimento de softwares ocuparão lugares de destaque.

Por outro lado, explica Mario Nei Pacagnan, linhas de produção ou de venda que envolvem commodities, produtos massivos e com grande similaridade entre os concorrentes, sofrerão mais impacto dos indicadores negativos e requerem atenção especial de seus gestores. “Quando se trabalha com commodity, é difícil mostrar algum diferencial. Para deslocar os concorrentes, é preciso agregar uma técnica inovadora, um novo conhecimento.”

Carlos Eduardo Boni destaca que, a exemplo de anos anteriores, o setor agrícola tende a prosperar. A macrorregião de Londrina é favorecida, uma vez que muitos recursos de cidades vizinhas vêm para a cidade. O setor de serviços, por sua vez, mesmo sendo dominante na economia local, requer o desenvolvimento de estratégias por parte do empresariado. “É preciso pensar em produtos customizados de acordo com o perfil do cliente”, diz Boni. Outra regra tradicional do varejo, em tempos de crise, é a redução de preços. “O preço, apesar de não ser o único fator determinante da demanda, é o mais importante.”


‘Fundo de reserva contra a crise’


Em 2015, a decadência da economia assombrou o Brasil – e as projeções para o próximo ano são igualmente pessimistas. Apesar da dificuldade em enxergar uma possível reversão do quadro atual, cabe às grandes cooperativas repensar sua matriz produtiva, ou seja, adequar-se às demandas econômicas de um país em crise.

O Brasil é notável exportador de commodities, cujos preços, fixados nas Bolsas de Mercadorias, sofrem com a inconstância inerente aos tempos de economia desfavorável. “Uma proposta para lidar com esta volatilidade é a criação de um fundo de reserva constituído por recursos oriundos do próprio processo de comercialização, formando um colchão de amortecimento para minimizar as oscilações de mercado”, propõe Marcos Rambalducci, consultor econômico da ACIL. “Seria estabelecido um preço mínimo de garantia de rentabilidade ao produtor. Caso o preço no mercado internacional remunerasse acima deste valor, haveria uma retenção progressiva de dado percentual sobre este excedente; quanto maior o excedente, maior o percentual retido.”

Outro problema enfrentado pelo País é a dependência da demanda chinesa para exportação de commodities. A China, no entanto, tenta mudar suas diretrizes e investir no aumento do mercado do consumo interno. “É evidente que a queda no apetite da China fez com que o preço das commodities despencasse. De qualquer forma, o país é incapaz de produzir tudo o que consome, e estas commodities permanecerão em sua pauta de importações”, afirma Rambalducci. “Compete ao Brasil tecer políticas que foquem na produção de valor por meio da transformação de nossas matérias primas em bens semi e manufaturados.” É um processo que leva tempo até surtir efeito. “Enquanto isso, precisaremos voltar nossas atenções a mercados capazes de absorver nossa produção de matérias primas, como alguns países da África, a Índia e a própria China, que merece ser vista tanto como um demandante de outras commodities quanto um possível parceiro da produção industrial”, explica o consultor.

É preciso retomar um cenário de estabilidade na economia do Brasil. Para Rambalducci, “isto significa equacionar as contas nacionais e retornar à ortodoxia do tripé macroeconômico calcado em câmbio flutuante, superávit primário e controle da inflação”.