14/12/2015 00:00:00 Pequenos empresários, grandes exemplos

Fonte: Lucas Marcondes - Revista Mercado em Foco - ACIL


Se ainda existe alguma dúvida sobre o papel fundamental dos pequenos negócios para a economia brasileira, a compilação de dados feita pelo Sebrae para a campanha Compre do Pequeno Negócio derruba qualquer tipo de questionamento. De todas as empresas do País, mais de 95% são pequenos negócios. Percentual este que representa 10 milhões de empreendimentos. Juntos, eles geram 27% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e mantêm 17 milhões de vagas com carteira assinada, sendo que 52% das vagas formais de emprego estão em pequenos negócios.

Em Londrina, é fácil notar exemplos práticos que contribuem para a dimensão desses números. Duas vias da cidade são a cara do pequeno negócio. A Rua Sergipe, no Centro, e a Avenida Saul Elkind, na Região Norte. O estado brasileiro que dá nome à Rua Sergipe é, territorialmente, o menor do País. A rua, por sua vez, tem enorme representatividade para o varejo local e serve como um termômetro para medir as intenções de compra do consumidor. Na Sergipe também estão peças fundamentais da história de Londrina. Entre elas, o Museu de Arte de Londrina. Projetado por Vilanova Artigas. O espaço já abrigou a Rodoviária e é um dos marcos da arquitetura modernista na cidade.

Estando no Museu de Arte, basta atravessar a rua para entrar na loja de Rafael Teló. Vindo de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, o diretor comercial do empreendimento conta que a Mega Jeans está naquele ponto desde 2003. Teló participa há um ano do projeto Nova Sergipe, uma união de esforços que tem sido desenvolvida desde 2009 por comerciantes da rua para revitalizar a via e torná-la mais atrativa para os compradores.

Quando recebeu a reportagem da Mercado em Foco, o empresário voltava de uma reunião da Nova Sergipe, onde havia avaliado a mais recente edição do Dia da Sergipe, data em que quarteirões são fechados para atrações que fomentam as compras e também realçam a importância da via. Os resultados foram positivos, segundo ele. Porém, Teló acredita que a adesão dos lojistas a estas iniciativas poderia ser ampliada. “É utópico achar que necessariamente todos vão participar, mas não devemos nos lamentar por aqueles que não participam. Temos que fazer acontecer com aquilo que está disponível”, analisa Rafael Teló.

Da Saul Elkind, a empresária Melina Benin, proprietária da Kid’s Shop Moda Infantil, também cobra união de esforços dos colegas lojistas que trabalham na via mais importante da região mais populosa de Londrina. Em 2014, ela esteve à frente da Liquida Saul, uma promoção abrangente que movimentou o comércio da Avenida. Neste ano, não houve oportunidade para realizar mais uma edição da iniciativa. Mesmo assim, daquele pontapé inicial ficou a experiência que a empresária espera que seja repetida. “O Liquida Saul foi um marco para fortalecer o pequeno negócio, porque é ele que move a região e gera empregos. Pela primeira vez, vimos o comércio da avenida mobilizado”, afirma Melina.

Um bom exemplo da união dos pequenos negócios vem do Arranjo Produtivo Local de Tecnologia da Informação e Comunicação (APL de TIC) de Londrina e região. “O APL fomenta muito o mercado. Iniciativas como treinamentos, palestras, cursos e viagem saem de discussões de dentro do APL. Isso é interessante para as empresas porque o APL se torna um gerador de oportunidades”, comenta o empresário Carlos dos Santos, de Cornélio Procópio, proprietário da CDS Informática. Ele está no ramo desde 1996, época em que, de acordo com ele, falar sobre inovação no ambiente de negócios era tratado com estranheza. “Éramos vistos como alienígenas; o ambiente era muito mais complexo; hoje, é muito mais dinâmico”.

Otimismo para sair da crise

Nesses dias em que a economia está cambaleando, é consenso entre especialistas e empresários que a capacidade de inovação dos pequenos negócios é preponderante para ajudá-los a superar o momento difícil. O gerente regional do Sebrae em Londrina, Heverson Feliciano, avalia que o cenário pode servir para uma reviravolta positiva. “A pequena empresa tem uma facilidade maior para se adequar à realidade, uma criatividade maior para inovar, lançar um novo produto, mudar uma forma de atendimento”. Ao mesmo tempo, Feliciano lembra que o empresário precisa estar munido de todos os dados e análises para fazer escolhas conscientes. “É importante que o empresário tenha a empresa na mão. Ou seja, que busque informações com o seu contador, com o Sebrae e com a ACIL para que ele saiba o que tem acontecido com a economia e como está a gestão da empresa dele. Assim, ele pode tomar boas decisões”.

O empresário Roberto Yabe, proprietário da Yabe Alumínios, na Região Sul de Londrina, não se reprimiu com as manchetes negativas do noticiário econômico. Pelo contrário: investiu. A empresa, que pertencia ao pai, está no segmento de alumínios desde a década de 1980. Conforme Yabe, o crescimento vertical de Londrina é mercado fértil para o uso desse tipo de material. Porém, depois de ver o número de orçamentos cair, o empresário decidiu apostar em novas ideias para enfrentar a onda de recessão. “É fundamental pensarmos em alternativas para superar essa crise. Somos muito focados na produção e agora vamos fomentar a atividade comercial da empresa: sairemos um pouco da fábrica e também seremos comerciantes. Vou contratar um representante e abrir uma loja com um showroom, o que não tínhamos antes”, detalha Roberto Yabe.

A loja de Melina Ribeiro começou a inovar bem antes de a economia nacional entrar nesta fase ruim. Descontente com o antigo ponto, o empreendimento se mudou para a Saul Elkind em 2013. Com a mudança, o negócio se repaginou graças ao trabalho de um designer contratado pela empresária. Atualmente, ela se movimenta para que o comércio continue atrativo para os compradores. “Temos tentado minimizar os efeitos negativos. Diminuímos as compras, mas focamos em produtos que têm mais saída. Também vamos fazer muitas promoções. Estou em busca de tudo o que o Sebrae me proporciona para ver se consigo uma saída estratégica”, projeta a empresária.

Atendimento de valor

Os empresários ouvidos pela Mercado em Foco afirmam também que o atendimento personalizado, que fideliza os clientes, é mais um diferencial dos pequenos negócios que pode ser potencializado dentro do atual contexto econômico. “O que diferencia as empresas hoje é o bom atendimento. Isso faz com que as empresas cresçam ou não”, diz Carlos dos Santos, da CDS Informática. Melina Ribeiro conta que tocar um negócio próximo a bairros é uma experiência gratificante. “Temos vários clientes assíduos que se tornam amigos. Quando conseguimos fidelizá-los, eles não vão comprar em outro lugar”.

O gerente regional do Sebrae, Heverson Feliciano, confirma: “O cliente percebe a diferença ao ser chamado pelo nome; ao receber uma ligação dizendo que o produto que ele aguardava chegou. Isso o pequeno negócio consegue fazer com uma facilidade maior”. Ele observa que a atuação em públicos específicos também significa vantagem para o pequeno empreendimento. “Se o pequeno negócio puder atuar em nichos de mercado, ele vai ser mais competitivo e conseguir se diferenciar. É definir quem é o público alvo e também agregar valor ao serviço”. Por fim, uma dose de coragem também é bem-vinda para enfrentar o ciclo negativo e alavancar os negócios. “Nos meses em que nos acovardamos, as vendas foram piores”, afirma Rafael Teló.