28/07/2015 00:00:00 Leia na revista Mercado em Foco: Ainda há tempo para planejar 2015?

Fonte: Pauline de Almeida - Revista Mercado em Foco

A economia passa por um momento de ajuste, especialmente no setor público. Para conter a inflação de 8,5%, o governo subiu as taxas de juros, com o objetivo de reduzir os investimentos e a produção. Após anos de incentivo ao consumo, a estratégia agora é esfriar as negociações para equilibrar a economia. O cenário não é positivo e a crise deve arrefecer somente no próximo ano, por isso é preciso cautela por parte das empresas.

Porém, tempos de crise também despertam oportunidades. O professor e economista Marcos Rambalducci aponta que é preciso ter ‘os pés no chão’ e enxergar caminhos que possam levar ao crescimento ou, ao menos, ao equilíbrio financeiro. “A crise acaba com o status quo. Quem vai bem, pode não ir mais. Quem vai mal pode crescer”, coloca.

E será que ainda dá tempo de planejar 2015? Com certeza! Avaliações e mudanças devem fazer parte do cotidiano da empresa. Com criatividade e disposição é possível reverter resultados negativos e até mesmo crescer durante esse momento complicado da economia. Segundo o economista Marcos Rambalducci, as organizações precisam exercitar o olhar em duas direções: para seu interior e também para as forças externas.

Ou seja: as empresas precisam observar seus processos, negócios e quadro de funcionários para buscar a redução de custos, tarefa da qual é impossível fugir no atual cenário. E também checar o andamento da economia, voltando a atenção para o consumidor, questionando o que ele está disposto a comprar e a que preço.

Maturidade e experiência

Até 2013, a venda de carros novos teve bons resultados, impulsionada pela isenção do Imposto sobre Tributos Industrializados (IPI). Com o fim da política e ainda a elevação das taxas de juros, o setor vem sofrendo. Montadoras de veículos, como General Motors, anunciaram a paralisação das atividades em junho para tentar reduzir o estoque parado. O mau momento interfere em toda a cadeia produtiva e chega também às concessionárias.

Dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) mostram que, no primeiro quadrimestre de 2015, 250 concessionárias fecharam as portas. Apesar de ter notado uma diminuição de 60% nas vendas de carros novos, somando 2014 e o primeiro quadrimestre de 2015, a Norpave – concessionária da Volkswagen em Londrina – ainda continua com lucro.

O diretor-presidente da Norpave, Luiz Bley Junior, informou que a crise é sentida desde 2014. Mesmo assim, o ano passado se encerrou com aumento no faturamento em relação a 2013. Com 45 anos de atuação em Londrina, a empresa soube buscar um nicho que a sustentasse, já que a comercialização de carros novos caiu. A opção foi pelos serviços de pós-venda, como peças, e o mercado de carros usados.

O bom faturamento também dependeu do corte de custos, que inclusive levou à demissão de funcionários. Luiz Bley Junior defendeu que é preciso saber tomar as decisões corretas nos gastos, adiando alguns projetos, e mantendo apenas o que adiciona valor ao negócio. Os treinamentos dos funcionários, por exemplo, não são interrompidos.

“Eu trabalho no ramo há 30 anos e já passei por várias crises. No Brasil, essa não é a primeira e nem vai ser a última. Historicamente, nenhuma crise foi menor que dois anos, então nós acreditamos na melhora do mercado somente para 2017. Com isso, a preocupação é grande com as despesas. Por exemplo, se eu quero pintar a revenda, eu vou jogar para o próximo ano. Agora, se eu preciso de uma ferramenta nova, importante para o serviço, eu vou comprar”, explica.

O cenário econômico pessimista não vai impedir a expansão da concessionária. A Norpave, por exemplo, tem em construção uma nova unidade na zona norte de Londrina. A inauguração da loja vai ser adiada, mas acontecerá até 2016, pois a crise não pode reduzir a expectativa da conquista de novos mercados.

Cultura e eficiência

Se a Norpave com seus 45 anos de atuação dá exemplo de como agir em tempos de crise, empresas novas, como a DMX Imóveis, que completa cinco anos em 2015, também mostram iniciativa. A imobiliária conseguiu fechar o primeiro trimestre deste ano com aumento de 16% nas vendas, ao focar na comercialização de salas comerciais da Gleba Palhano a preços atrativos.

A indústria da construção civil foi muito afetada pelos cortes do governo federal, mas os últimos anos de boom deixaram um grande estoque de imóveis prontos. As incorporadoras precisam comercializar os espaços para formar caixa e assim fazem preços mais atrativos ao consumidor, o que tem contribuído para os bons números do setor imobiliário.

O diretor e sócio da DMX Imóveis, Manoel Gonçalves de Oliveira Neto, destaca que o planejamento é fundamental para apontar as oportunidades a serem aproveitadas. A empresa tem um plano estratégico de 2015 a 2020 e ainda trabalha com índices diários, que abalizam cada setor do negócio.

Oliveira Neto ainda coloca que um elemento vem sendo fundamental para o equilíbrio da empresa: a cultura de participação dos funcionários na tomada de decisões. A DMX mantém um conselho administrativo – independente dos sócios e formado pelos colaboradores – que analisa como atingir as metas. Ou seja, são os próprios trabalhadores que buscam as estratégias para vencer a crise, dividindo as responsabilidades.

“É um período que você precisa fazer mais com menos, então é uma oportunidade que nós temos de entender quanto de eficiência temos em nossa empresa”, comenta. Ou seja, a crise econômica deve despertar na empresa todo seu potencial. É claro que o período não é para ser comemorado e vai ser vivido com sacrifícios, com diversos cortes, inclusive de pessoas, mas pode ser aproveitado para melhorar os processos institucionais.

“O melhor é não estar em crise, é a gente ver as pessoas com emprego, mas infelizmente estamos nela e temos que tirar um proveito. Nós estamos trabalhando para a hora que a gente sair da crise, sair com um domínio maior do mercado”, completa o diretor da DMX Imóveis.

Gestão de pessoas

A melhoria de processos e a descoberta de mercados são feitas por pessoas. É o quadro de funcionários da empresa e sua aptidão que vai ditar boa parte do sucesso da organização durante a crise econômica. A consultora organizacional e psicóloga, Filomena Storti Mineto, ressalta que é preciso informar os colaboradores das dificuldades vividas e trazê-los para a tomada de decisões.

“As empresas estão um pouco com o ‘freio de mão’ puxado. Por quê? Porque a política e a economia não vão bem, por isso as empresas estão em compasso de espera, aguardando para saber o que vai acontecer. Porém, o mercado está mais competitivo. Se eu quero um resultado, o desenvolvimento de pessoas tem de continuar”, orienta.

A nova geração de colaboradores das empresas ainda vem de uma vivência de participação e quer ser fortalecida. Por isso, o momento é de segurar os principais talentos e investir no capital intelectual, aumentando a eficiência da organização.


Setores e suas expectativas para o mercado

Agronegócios: é o setor que menos deve ser afetado pela crise, especialmente as empresas que atuam na exportação, que têm registrado boas taxas de câmbio.

Serviços e automóveis: setores sensivelmente afetados, mas com poder de reação rápida após amenização da crise.

Alimentação: restaurantes devem notar quedas, enquanto supermercados podem ter aumentos. Tendência é a população comer mais em casa.

Construção civil: setor com grande dependência das políticas federais. Apesar dos cortes drásticos, especialistas acreditam que governo deve voltar a soltar investimentos, pois é um mercado que emprega muito, especialmente mão de obra menos qualificada.