25/03/2019 10:08:09 'Tenho DNA de comerciante'

Por Ranulfo Pedreiro - Revista Mercado em Foco - ACIL

Há uma lógica popular entre as pessoas muito ocupadas: quanto mais se faz, mais tempo sobra. A ideia se reflete na rotina de Fernando Maurício de Moraes, eleito presidente da ACIL para o biênio 2019-2021.

Ciente dos compromissos impostos pelo cargo, ele enxerga, na agenda lotada, a possibilidade de muitas realizações. Para quem o vê como workaholic, Moraes avisa: “Eu também paro, tenho esse equilíbrio, consigo me desligar”.

Boa parte dessa dinâmica deve-se à tecnologia. Fernando Moraes faz reuniões à distância e monitora, por câmeras, o dia a dia da rede de lojas que dirige. Sabe que o mercado não está fácil e, por isso, não tira os olhos da empresa. “A tecnologia me ajuda muito. Quanto mais atividade você tem, mais tempo sobra”, destaca.

O sucessor de Claudio Sergio Tedeschi tem 47 anos, nasceu em Londrina e vem do comércio. Fernando começou como bancário, montou na época duas lojas de perfumaria e há quase 20 anos trabalha na Móveis Brasília, onde exerce o cargo de diretor comercial. Conhece toda a estrutura empresarial e quer aproveitar a experiência para revitalizar o varejo londrinense. “Eu tenho DNA de comerciante”, ressalta.

Quando não está cuidando da empresa, Fernando Moraes dedica-se ao associativismo. Na ACIL, entrou na gestão de Valter Orsi como diretor comercial. Depois, foi vice de Claudio Tedeschi, colocando-se como candidato natural à sucessão. “Estou cercado por pessoas que doam grande parte do seu tempo em prol do desenvolvimento empresarial, além do desenvolvimento de Londrina e toda a região. São pessoas de boa alma, que acreditam que lutar juntos pelo bem comum faz toda a diferença para uma sociedade. Todos nós ganhamos com isso. Não tem o que pague aprender sobre outros negócios, entender a situação da cidade e também oferecer aquilo que você sabe. Eu procuro me aperfeiçoar para dar o melhor aqui na ACIL”, revela.

 

Foco

Mesmo surgindo como uma nova liderança dentro do associativismo, Fernando Moraes está em sintonia com outras gestões da ACIL, integrando um movimento de continuidade dentro das discussões e soluções desenvolvidas pela associação. Sua prioridade, como presidente, é estimular o comércio: “Queremos fazer com que o comércio seja novamente pujante e retome as vendas que perdeu nos últimos cinco anos. Esse vai ser o nosso grande foco”.

Os rumos devem contemplar ainda mais a opinião dos associados, inclusive a partir de uma pesquisa que deve ser concluída ainda no primeiro quadrimestre. “O associado tem voz ativa e terá ainda mais, a gente quer aumentar essa interatividade”, comenta Fernando Moraes.

Outra novidade é uma ouvidoria empresarial que deverá ser instalada na ACIL ainda no primeiro semestre. O setor irá registrar os problemas enfrentados por empresas no dia a dia, como trâmites burocráticos, por exemplo. “A ideia é compilar essas dificuldades da classe empresarial e repassar ao Poder Público para que sejam solucionadas as situações que cabem a ele resolver. Vamos dar publicidade a esse material e cobrar as respostas”, ressalta o presidente da ACIL.

 

Datas comemorativas

O estímulo ao comércio passa pelo planejamento das datas comemorativas. As decisões sobre o horário de funcionamento das lojas em dias especiais têm demorado, dificultando a divulgação e a organização interna. Fernando quer conversar com os sindicatos do comércio e dos trabalhadores para definir antecipadamente o calendário de funcionamento das lojas e, com isso, conseguir tempo hábil para realizar ações que atraiam o consumidor.

“Quando se resolve abrir o comércio aos 45 minutos do segundo tempo, metade das lojas fica aberta e metade não abre. E não critico aqueles que não abrem. Eles já tentaram abrir e viram que não deu movimento. A ideia é ter esse calendário antecipado e proporcionar mais ações no Calçadão, como shows, feiras ao ar livre, encontro de food trucks, com o objetivo de levar famílias para as ruas de Londrina, apreciando nossa cultura, lazer e, sem dúvida, a rica diversidade do nosso comércio.

O consumidor não quer apenas o preço atrativo das lojas. Vamos tentar ajustar essas definições sobre os horários da melhor maneira possível juntamente com os sindicatos”.

 

LondriNatal

Entre as atrações, que contam inclusive com potencial turístico, está um natal mais iluminado. “É um compromisso nosso, com responsabilidades divididas com o Município, através da Codel, que já confirmou a abertura de um processo de licitação. Este ano queremos deixar o Natal mais iluminado, é o que todo comerciante e todo consumidor pede. Teve muito consumidor nosso que foi visitar cidades vizinhas porque aqui não havia decoração com as luzes que são características desta data e criam o espírito natalino. Londrina está precisando deste otimismo, a venda vai ser uma consequência de todas essas ações”, argumenta.

É uma iniciativa que passa automaticamente pela revitalização do Centro de Londrina, incluindo soluções para limpeza e segurança. Fernando Moraes avisa: “Vamos carregar essa bandeira, cobrar dos governantes, certamente com o apoio de outras entidades”.

 

Plano Diretor

A parceria com outras entidades para discutir o desenvolvimento da cidade está voltada também para o Plano Diretor, cuja revisão foi enviada pela Prefeitura para votação na Câmara. “Alguns técnicos estudaram o plano e falaram que não está bom. Então a gente está com o Sinduscon e outras entidades para, ao lado do Executivo, desenvolver um plano diretor melhor para a cidade, porque ali está o nosso futuro”.

 

Masterplan

Uma das ideias é incluir o Plano Diretor dentro de um planejamento conhecido como Masterplan. A intenção é levantar as potencialidades econômicas de Londrina e definir os rumos dos próximos 50 anos, proporcionando avanços muitas vezes atravancados pela instabilidade política. A proposta já está sendo desenvolvida em Maringá, experiência acompanhada de perto pela ACIL.

“A implantação de um Masterplan em Londrina vem sendo discutida há cerca de dois anos, mas é preciso que a ideia seja abraçada pela Prefeitura, já que os custos giram em torno de R$ 1,5 milhão”. Uma vez elaborado, o Masterplan estabelecerá um rumo para as futuras administrações, evitando a descontinuidade de ações por conta do cenário político e favorecendo a cobrança de metas.

“Nós temos o Núcleo de Desenvolvimento, criado com as principais entidades. O Claudio Tedeschi, ex-presidente da ACIL, costurou isso muito bem, e uma das nossas metas é manter este relacionamento para ajudar no desenvolvimento. Ali a gente trabalha a revitalização do Centro, a criação de uma governança para o Ecossistema de Inovação, o Masterplan e a Zona de Amortecimento, que está dentro do Plano Diretor. São várias pautas. Conseguindo desenvolver a cidade desta forma, o emprego vem junto”.

 

Impostos

Todas essas ações seriam formas de monitorar o Executivo por intermédio da sociedade civil, evitando reviravoltas mirabolantes nas gestões. “O governo estadual foi formado e não tem um secretário da região. A sociedade civil organizada precisa cobrar o governo, reivindicar, mas tem também que apoiar. Nós apoiamos a diminuição da máquina pública. Porque quem paga essa conta somos nós. Se não diminuir a máquina pública, ela precisa de mais impostos para se pagar”, alerta Moraes.

É uma fórmula conhecida. O dinheiro que falta na gestão pública é obtido com aumento de impostos. Uma estratégia condenada pela ACIL, que não hesita em defender os associados na Justiça em caso de decretos abusivos, com alta tributária.

“Nos últimos governos, a gente só teve aumento de imposto. A questão tributária é importante para o comércio e para todo o empresariado. A gente quer cobrar o novo governo, que está mostrando pulso firme para enxugar a máquina pública, porque a gente sabe que se não enxugar a conta é nossa, e do consumidor por consequência”.

Na defesa dos associados em esferas estaduais ou federais, a ACIL permanece alinhada com a Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado do Paraná (Faciap).

 

Inovação

A Fundação CERTI, de Florianópolis, elaborou o Planejamento do Ecossistema de Inovação de Londrina, um estudo que aponta setores estratégicos, com potencial para alavancar o desenvolvimento da cidade. Datado de 2017, o documento foi uma solicitação de diferentes entidades, como ACIL, CEAL, Cintec, FIEP, SEBRAE, Sercomtel, Sicoob, Sicredi, Sindicato Rural Patronal, Sindimetal, Sinduscon, Sinfor/PR, Sociedade Rural do Paraná, entre outras.

“A parte tecnológica de Londrina é muito forte. Então a gente tem que incentivar mais esse polo”, sintetiza Fernando Moraes. O modelo é justamente Florianópolis, cidade onde a tecnologia de informação superou, em importância, o turismo, tornando-se o principal segmento”.

O Ecossistema de Inovação criaria uma rede de Tecnologia da Informação para que as empresas conversem entre si, estabelecendo parcerias, fortalecendo o mercado e aumentando a arrecadação do município. “Como Londrina já é uma cidade universitária, há um cenário propício para o estabelecimento de um polo de tecnologia. Seria o início de um novo ciclo econômico”.

Entre as áreas com potencial citadas pela CERTI, estão Biotecnologia, Ciências Agrárias, Ciências da Saúde, TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação), Tecnologia de Alimentos, Química e Engenharias. As vocações econômicas da cidade estariam voltadas para agronegócio, alimentos, logística, metalmecânico, TIC, saúde, química, borracha, plástico, materiais elétricos e eletrônicos, têxtil, confecção, móveis, papel, celulose e construção civil.

 

Voluntariado

Fernando Moraes pretende encarar todo esse trabalho sem se afastar da empresa, uma vez que a presidência da ACIL é um cargo voluntário. A solução, portanto, é contar com o apoio da equipe. “É muita coisa, mas a equipe técnica da associação é excelente, dá um suporte muito grande. Deixei bem claro para os diretores que cada um vai ter que se aprofundar em sua área, vai ter que trabalhar mesmo. Estamos afinados, temos tudo para fazer uma gestão muito boa.”

Como o volume de trabalho é grande, a gestão dura apenas dois anos. Fernando Moraes considera o tempo hábil para atingir as próprias metas. “A comunidade espera muito de nós, tem bastante cobrança, a gente vai responder o melhor possível. Estou bem afinado com cada diretor para trabalharmos em conjunto. É muita responsabilidade, mas confio muito na diretoria, confio muito na equipe. Há uma estabilidade dentro da entidade, as coisas são continuadas. Não tem essa história de acabar a gestão e mudar tudo. Isso fortalece muito, gera uma coerência de ações. Dois anos passam rápido, mas a gente consegue fazer bastante coisa.” Por enquanto, a agenda do novo presidente não vai ter descanso.