03/02/2020 08:22:13 Uma solução para vários problemas

Fonte: Janaína Ávila - Revista Mercado em Foco/ACIL 

Imagine você, pegando os filhos na escola e indo com as crianças, ainda de uniforme, escolher um presente para o coleguinha de classe que faz aniversário no fim de semana. Ou, então, assistindo a um show na Concha Acústica no final da tarde e, depois, passeando pelo Calçadão na volta para casa com um sapato novo na sacola. Nesses dias quentes de verão, imagine poder deixar para depois que o sol se pôr aquele passeio nas lojas para aproveitar as liquidações. Por enquanto, só imagine, porque isso ainda não é possível no Centro de Londrina, embora o debate pela flexibilização do horário do comércio seja bem antigo.

Em setembro do ano passado, o Sindicato do Comércio Varejista de Londrina (Sincoval) entrou com uma ação liminar na Justiça pedindo a suspensão da aplicação do artigo 16 do Código de Posturas do Município, que determina os horários de funcionamento dos estabelecimentos comerciais. Além disso, a ação pede o fim da aplicação de penalidades aos comerciantes que desrespeitarem o disposto na lei municipal até que o processo transite em julgamento. Bem além do impasse judicial, a flexibilização do horário do comércio pode ajudar a trazer para o Centro a tão desejada revitalização, e a transformação da paisagem atual do Centro Histórico, que nos finais de semana parece entrar em letargia.

Fabio Kai, diretor geral da Leo Cosméticos, abriu a sua primeira loja no Centro em 2002. Hoje, o grupo conta com 12 estabelecimentos no Paraná e se confirma como a maior rede de cosméticos do sul do País. Em Londrina, são lojas na rua e em shopping centers. Portanto, para o empresário, a comparação entre as duas modalidades acaba sendo inevitável. “O centro de Londrina perde toda a vida depois das 18 horas e, aos sábados, após às 15 horas. A cidade não fica sem as pessoas, elas só vão para outro lugar”, analisa. Na sua opinião, os shopping centers conseguiram mudar o conceito da venda e o fluxo de clientes está diretamente atrelado às ações, promoções e campanhas. “O mall deixou de ser um ponto comercial e se tornou um espaço de convivência. Tem entretenimento, alimentação, consumo, internet aberta, áreas de descanso e banheiros limpos para a família, com até carrinho de bebê em comodato. São algumas das coisas que estão impactando e vão continuar pesando quando o cliente pensar em deixar de ir a shopping estruturado para ir à rua, que nada disso oferece”, comenta. “A venda está diretamente atrelada ao fluxo de pessoas, e pessoas felizes compram mais”, completa.

Com mais de 600 colaboradores, Kai acredita que um horário de comércio engessado ainda dificulta a contratação de mão de obra altamente qualificada, uma característica de Londrina, com tantos universitários. “São milhares de pessoas que não conseguem emprego por não poderem trabalhar no horário comercial, principalmente dos cursos integrais, pessoas com plena capacidade de trabalho e produção que não estamos aproveitando por estarem em uma realidade diferente de carga horária. Gostaria de ter essas pessoas enriquecendo meu time”, desabafa.

Para o empreendedor, chegou a hora do comércio de rua aceitar que a flexibilidade de horário combina com a realidade moderna. “Universidades com o EAD permitem horário flexível, farmácias 24 horas, supermercados, postos de gasolina etc. Isso é um desejo tanto de quem compra quanto de quem está procurando emprego. A verdade é que, na rua, paramos no tempo. Nosso cliente é, na grande maioria, quem sai de casa para fazer algo que não é exatamente vir na nossa loja: sai para o banco, o cartório, clínicas médicas ou outros serviços. Abrir aos fins de semana, sem esses fatores que puxam o fluxo para o centro, é um desafio enorme. O que vamos oferecer ao cliente para que ele, colocando na balança, queira vir ao centro e não para o shopping, onde até estacionamento alguns isentam? As dificuldades do centro passam sim por segurança, conforto climático, atrações e novidades”, ressalta.

Para Kai, o Centro precisa se tornar um espaço para a família, um local de convivência, um ponto turístico bonito, seguro e agradável, que as pessoas possam vir para Londrina para visitar. “Abrir nos fins de semana é interessante, mas abrir por abrir já é possível todos os sábados. Mesmo assim o comércio só fica nos dois primeiros sábados, porque não compensa. Precisamos de mais atrativos para viabilizar a abertura nos finais de semana”, diz.

Outra realidade

Para o especialista em varejo e franquias Leandro Krug, a flexibilização do horário do comércio é, acima de tudo, uma mudança cultural. “Mexer na cultura sempre causa algum desconforto. Para o centro histórico, é uma oportunidade de deixar as ruas mais vivas e seguras. A presença de fluxo de pessoas é um inibidor da violência também”, afirma. Para ele, mudanças culturais precisam de novos rituais e símbolos, como eventos que convidem o consumidor a passear pelo centro histórico. Isso auxilia o fluxo, e um exemplo é a rua XV de Novembro, em Curitiba. “No final do ano, todo mundo espera a tradicional apresentação das crianças cantando. Isso acontece justamente à noite. Quando o evento é um passeio, um convite a uma experiência nova, mais atraente será ao consumidor”, diz.

Krug concorda com o empresário londrinense Fabio Kai sobre a mudança de hábitos, não só de consumo, mas de estilo de vida. “A flexibilização é uma tendência sim. Há 50 anos, os operários, os agricultores e burocratas tinham horários bem definidos de trabalho. Hoje já existem propriedades onde parte do trabalho na lavoura acontece à noite. Muitas pessoas possuem atividades que ocupam todo o horário comercial. Quando vou a Nova York, é impossível pensar na Times Square e nas quadras ao redor sem suas lojas abertas até mais tarde”, completa.

A imaginação não serve para saber como seria o centro de Londrina com uma flexibilização do horário do comércio. Na verdade, em outras regiões da cidade isso já é uma realidade. Um ótimo exemplo está nos Cinco Conjuntos, com a avenida Saul Elkind, que pulsa dia e noite, e também aos sábados e domingos.

De acordo com Ovhanes Gava, presidente do Sincoval, a solução encontrada pela zona norte pode servir de exemplo para o centro que agoniza. “Funciona melhor que aqui no centro. Os consumidores já assimilaram a ideia de que lá se trabalha nos finais de semana e, quando tem a Feira do Cincão, o comércio nas adjacências fica aberto em pleno domingo de manhã. A flexibilização é uma realidade que está gerando riqueza e emprego. Estão trabalhando e gerando impostos”, diz.

O mesmo acontece em outros bairros, como o comércio ao redor da avenida Inglaterra. “Os comerciantes do centro precisam aderir à ideia, entender que a concorrência existe e que se ele não quer ficar de fora do mercado, ele tem que se projetar. Pensar nessa extensão de atendimento, ficar disponível ao consumidor. Ou a gente atende bem os nossos clientes, com horários flexíveis, preços e ações atraentes, ou migramos todos para o shopping, e fim da discussão”, provoca.

Trânsito

Para o presidente da ACIL, Fernando Moraes, não tem ninguém melhor do que o próprio comerciante para apontar o melhor horário de funcionamento da sua atividade, para o fluxo de venda. Flexibilizar o horário significa dar liberdade para o empresário decidir quando quer abrir e fechar as portas, sempre garantindo aos trabalhadores o cumprimento integral de toda a legislação trabalhista, bem como a observância de todos os pontos negociados, que fazem parte da convenção coletiva da categoria.

“É a melhor saída para o comerciante e para o próprio comerciário, que quer ficar na loja nos horários que vende. Muitas vezes, ficam de braços cruzados, perdendo dinheiro, quando poderiam estar ali em um outro dia, vendendo muito bem”, explica. Para ele, a mudança no Código de Posturas é urgente. “O município precisa entender que essas normas estão ultrapassadas”.

Segundo Moraes, a variação dos horários de abertura no comércio pode ajudar outro grande problema do centro: o da mobilidade. “Às seis da tarde, é um caos nas ruas do centro. Com o horário flexível, algumas lojas podem fechar mais tarde, outras antes, o movimento de carros ficaria menos concentrado. E isso ainda melhora o centro à noite, que hoje é um deserto. Não fica nada aberto, nem um comércio, nem um restaurante, nada! Todo comerciante quer essa mudança”, continua.

De acordo com números do IPPUL, no fim do expediente, às seis da tarde, cerca 20 mil carros transitam pelo centro, e outros 10 mil ainda ocupam as vagas de estacionamento. Para Denise Ziober, diretora de trânsito do instituto, uma flexibilização no horário de abertura do comércio ajudaria a diminuir a concentração de veículos e, consequentemente, melhoraria o fluxo do trânsito. “Em certas vias da cidade, o excesso de veículos esgota a capacidade viária, o que promove a lentidão. Com escalonamento de horários, isso dificilmente aconteceria com os volumes de tráfego atual”, diz.

Mas o problema também se apresenta, e às vezes é até pior, pela manhã, no sentido dos bairros para o centro. “Constantemente estamos trabalhando para desafogar o trânsito, mas nem sempre apenas as medidas de trânsito são suficientes”, diz. O IPPUL está trabalhando em um novo plano de mobilidade para a cidade, simulando situações de conflito para tentar indicar soluções mais adequadas aos problemas.