20/01/2015 00:00:00 Há 72 anos o empresário Waldemar Maran costura a própria história em Londrina

Por Michelle Aligleri

O que o barulho da máquina de costura e a terra vermelha têm em comum? Para o empresário Waldemar Maran tudo. Foi aqui na terra vermelha do Norte do Paraná, onde chegou com a família aos seis anos de idade, que começou seu encanto pelas máquinas de costura - ramo em que atua até hoje. Mesmo tendo se passado 72 anos da primeira vez que pisou o chão de Londrina, Maran lembra de detalhes da cidade. Aliás, memória é uma característica que não lhe falta. “Eu tinha seis anos, morava no patrimônio Selva com a minha família e lembro que o prefeito da época passava por uma porteira com o seu Fordinho. A minha alegria era ouvir o ronco do motor e ganhar as balinhas que ele carregava”, comenta. Da mesma época vêm as memórias da máquina de costura, que ficava nos fundos da casa. “A minha mãe costurava para a família, éramos em onze filhos e eu trocava as bobinas de linha e movimentava a manivela que fazia a máquina funcionar”, detalha.

Desde então Maran nunca mais deixou as máquinas de costura de lado, ele cresceu junto com Londrina e aos 15 anos começou a trabalhar na Companhia Singer. “Ficava na avenida São Paulo, 146, e o telefone de lá era 199. Tínhamos que pedir uma ligação para a telefonista às 16 horas para conseguir falar em São Paulo às 8 horas do dia seguinte”, detalha. Na empresa ele começou nos serviços gerais e passou a responsável pela manutenção. Como levava jeito com as máquinas, foi escolhido entre os funcionários para fazer um curso especial de manutenção em São Paulo. Foram oito anos trabalhando na Singer, depois mais seis anos atuando na mesma área em Paranavaí, e visitando Londrina a cada 15 dias por conta da família e da namorada.

Casou-se em 1959 e em 1965 Maran deu início ao próprio negócio, abriu uma portinha na rua Goiás, próximo à avenida Duque de Caxias – onde está sua loja atualmente – e começou a consertar máquinas de costura. A portinha foi aumentando e ele se tornou representante de uma marca de máquinas japonesas, passou então a revendedor e de lá para cá o negócio só cresceu. Nesta época Maran teve forte influência na instalação de indústrias têxteis na região de Londrina e também em Cianorte – cidade do noroeste do estado conhecida atualmente como a Capital do Vestuário. “Eu ensinei muita gente a costurar e usar a máquina de costura industrial. De forma indireta dei o impulso para algumas indústrias porque eu vendia as máquinas do Japão”, lembra. Ele conta que chegou a sugerir que o prefeito Wilson Moreira comprasse dez máquinas para montar uma escola de corte e costura na cidade, mas a oferta não foi aceita por conta dos custos que envolveriam a implantação.

A loja atual “Valeron” tem 49 anos e comercializa máquinas de costura industriais e domésticas, máquinas eletrônicas além de utensílios para costura. Quando trocava as bobinas de linha para a mãe, Maran não imaginava que aquele encanto de criança se tornaria um dia uma profissão. Até hoje a relação do empresário com máquinas antigas é diferenciada. “Quando alguém me traz uma máquina para restaurar eu faço questão de fazer o serviço pessoalmente. Durante as horas de trabalho eu volto ao passado, é como uma terapia”, afirma.

Outros tipos de máquinas antigas também ganharam o encanto do empresário. Lembra-se do Fordinho do prefeito? Hoje Maran tem três deles, um de 1928, um de 1929 e o terceiro de 1931. Todos restaurados e impecáveis. Os carros antigos se tornaram o hobby na vida do empresário há 30 anos. Um Fusca 1970, um Dodge 1979, duas Mercedes – uma 280 SL de 1979 e outra 300SL de 1986 e uma moto BMW 1951 fazem parte da coleção que é cuidada com carinho pelo empresário. Os encontros do Clube do Carro Antigo fazem parte da rotina e quando questionado se ele passeia com as relíquias a resposta é rápida. “Só aos finais de semana, quando o trânsito é mais tranquilo”.

Apesar de ter nascido no interior de São Paulo, Maran se considera de pé e coração vermelho. “Investi toda a minha vida aqui nesta terra. Quando eu vejo Londrina completando 80 anos eu me sinto muito orgulhoso. Vi a cidade crescer, escorreguei muito na lama formada pela terra vermelha depois das chuvas”, conta. Ele lembra que era preciso colocar galochas para sair de casa e que eram as cercas de balaustra que salvavam as pessoas durante a caminhada. “Se não agarrasse na cerca a gente caía no barro”, detalha. Ao olhar para a Londrina de hoje ele conta que se impressiona com o progresso. “O crescimento foi muito rápido e o planejamento fez muita falta, especialmente na questão do trânsito”, afirma.

A busca da melhoria do trânsito é uma das atividades que Maran inclui na sua rotina. Integrante do movimento Viva Duque, que tem neste um dos principais pontos de ação, ele comenta que a situação atual da avenida está prejudicando muitos empresários. Parte da avenida que não é duplicada teve a instalação da faixa exclusiva para ônibus e o estacionamento de veículos impedido. Atualmente as vagas podem ser utilizadas em um determinado período do dia, mas ainda assim houve queda no movimento das lojas. “Sofremos muito com esta questão. Na minha opinião o certo seria fazer da Duque uma avenida, alargar a rua, como foi feito na rua Goiás”, sugere. Conforme ele, a iniciativa, além de melhorar o trânsito, valorizaria o comércio. “A Duque é uma rua muito rica , vende-se de tudo por aqui”, aponta. Ele afirma que se for feito um bom projeto de estacionamento os comerciantes irão investir na melhoria das calçadas e do salão. “A avenida hoje é feia, mas queremos que ela seja bonita, um lugar agradável para as pessoas passearem. Para isso precisamos de estacionamento na via”, complementa.

Maran pensou muito quando foi questionado sobre qual presente ele daria para Londrina. Depois de pedir ajuda da esposa e de refletir ele afirmou que daria mais indústrias, para possibilitar a geração de mais empregos. As indústrias que ele ajudou a fortalecer quando vendia máquinas de costura na década 60, fazem falta na cidade hoje, na visão do empresário. Empreendedor, Maran segue com suas lembranças da velha Londrina tentando trazer melhorias para a cidade que cresce a olhos vistos e que ele ajudou a se desenvolver.