Fonte: Folha de Londrina
Hábito sagrado na rotina da pensionista Ivone Brumati do Prado, 72 anos, a soneca depois do almoço é fundamental para manter o pique durante o resto do dia. Os possíveis benefícios do costume, entretanto, dividem a opinião de especialistas. Recomendada para facilitar a digestão, a soneca pode desencadear processos enxaquecosos e até provocar insônia durante a noite.
O gastroenterologista Roberto Menoli explicou que a sonolência após a alimentação ocorre em função do desvio de fluxo sanguíneo para o território dos vasos do trato digestivo. ‘‘Por isso é recomendada’’, explicou o médico, que mantém o hábito de repousar por 15 a 20 minutos após a refeição.
Segundo ele, movimentações excessivas depois de comer podem causar desconforto abdominal, náuseas e cefaléia, entre outros sintomas. ‘‘É a popularmente chamada congestão’’, disse. Do ponto de vista da gastroenterologia, não é recomendável deitar-se depois de comer quando a pessoa é portadora de refluxo gastro-esofágico, que se intensifica na posição horizontal. ‘‘Nesse caso, é possível descansar recostado em uma poltrona’’, ensinou.
Ciclo vicioso
O neurologista Aparecido Andrade reconhece que o sono do início da tarde é benéfico para as pessoas que têm necessidade de dormir por períodos mais prolongados e não conseguem cumprir o ciclo durante a noite. ‘‘Se essas pessoas não dormem à tarde, a sonolência pode interferir na produtividade.’’
O hábito, entretanto, não é recomendável para todos. Portadores de enxaqueca podem ter crises desencadeadas pela soneca, em função da liberação dos hormônios do sono fora do horário natural. A insônia é outra possível consequência do sono diurno. ‘‘Tem gente que dorme de dia para compensar o sono ruim da noite e acaba criando um ciclo vicioso. O sono fragmentado não é o ideal. Melhor é ter um ciclo de sono regular noturno’’, afirmou.
Alheia às orientações dos médicos, Dona Ivone faz questão de dormir por duas horas, todos os dias, após o almoço. ‘‘Se não faço isso, de noite acabo indo dormir mais cedo e acordo de madrugada’’, explicou. Nos dias em que não consegue tirar a soneca, a pensionista conta que fica irritada e cansada.
Dona Ivone garante que o sono da tarde ajuda inclusive a minimizar os sintomas da fibromialgia. ‘‘Quando não durmo, sinto dores no corpo e, no final da tarde, preciso deitar para me sentir melhor.’’
Cientes da importância do descanso vespertino da pensionista, os familiares procuram ficar em silêncio para não acordar a matriarca. ‘‘Não acho ruim quando me acordam por um motivo importante, mas fico brava quando meus netos fazem barulho enquanto estou dormindo.’’



