28/10/2020 10:10:13 Na corda bamba

Fonte: Fernanda Bressan - Revista Mercado em Foco/ACIL

Viver nunca foi algo estável, mas estávamos acostumados às instabilidades conhecidas, era como se houvesse alguma estabilidade na instabilidade que nos deixava na zona de conforto. Mas 2020 não está sendo assim, tivemos literalmente que andar na corda bamba sem saber qual seria o próximo movimento, que recursos teríamos ou até quando a corda iria balançar. De todas as formas, seja na vida pessoal, profissional e até nas nossas próprias emoções, fomos arremessados à incerteza, tendo que adquirir quase que de imediato novas habilidades para não sucumbir.

A pandemia nos trouxe o lado mais difícil da vida, a sua fragilidade. Simultaneamente, tivemos que encarar a fragilidade da vida, da economia, das emoções, do mundo! Você estava preparado para isso? “A verdade é que nunca estamos de fato preparados, tanto as empresas na parte da gestão, como as pessoas no lado emocional e comportamental. O que mais me marcou nesta pandemia foi que o equilíbrio emocional é o mandatário de tudo, inclusive da gestão. Se o empresário não segurar a onda, ele passa essa instabilidade para os outros, inclusive para o cliente”, diz Cleufe Almeida, consultora e facilitadora da ACIL.

Como ela, a psicóloga Ana Paula Brunasso também destaca a inteligência emocional como diferencial de quem ultrapassou a crise de forma mais efetiva. “Dentro da psicologia a gente trabalha muito com a estabilidade e a instabilidade, é muito importante a pessoa reconhecer quais são os fatores que a deixam estável e aquilo que a deixa instável. Nosso dia a dia é assim, criamos expectativas e, a partir daí, se nos deparamos com dificuldades, isso se torna instável para nós. Para lidar com a instabilidade é importante reconhecer as nossas emoções e os nossos sentimentos. É possível perceber o que nos deixa vulnerável, o que aquela situação causa em nós, mas isso é um treino, precisamos treinar para estarmos aptos a reconhecer o que acontece com a gente diante das dificuldades”, declara.

E as dificuldades vieram como uma avalanche impondo um “novo normal”. “A Covid-19 trouxe incertezas para gente e está deixando tudo muito confuso. Junto com isso, veio a mudança de rotina, provocando muito cansaço físico e mental. Parece que não estamos fazendo nada, mas nos sentimos cansados tanto física como mentalmente. O nosso emocional fica mais instável”, completa Ana Paula.

Algumas empresas estavam mais preparadas, outras foram pegas de “calça curta”. Cleufe aponta para a importância de quem soube criar e inovar. “O ‘eu fazia assim’ já não é mais parâmetro, a criatividade é imprescindível neste momento. Em geral, a criatividade e a inovação acontecem como uma oportunidade, mas neste momento elas vieram pela necessidade. Se tinham critérios que eram relevantes até então, eles deixaram de ser”, reflete.

Questões como tempo, local de trabalho, custos e investimentos foram resignificados. “Na retomada, o normal não será mais normal. Tivemos muitas mudanças. Um exemplo é o home office, até então visto como algo problemático, o argumento era de que não seria possível saber o que o outro estava de fato fazendo, mas digo que se o empresário e o gestor fizerem a tarefa de casa, o funcionário também fará. Este novo momento disse que o home office funciona e, inclusive, economiza tempo, pois não há o deslocamento, como de custos diretos. Agora, o olhar está mais dinâmico, mais enxuto de custos, e não apenas enxuto de recursos humanos. Existem empresas contratando, mas estamos mais atentos à gestão do tempo e dos recursos”, pontua Cleufe.

Como em toda crise, novas oportunidades aparecem, muitas para ficar. “O home office veio para ficar. Outro exemplo é o gerenciamento, ele teve que se adequar ao momento, era preciso gerenciamento emocional, de recursos, de infraestrutura, de pensar em como fazer diferente com a mesma estrutura. Fomos lançados a esta situação que tinha que segurar e criar resistência, além de lidar com o emocional para não ter descontrole, afirma a consultora.

Resiliência emocional

Do lado pessoal, também tivemos que nos reinventar e entender o novo dia a dia. Ana Paula fala que quando ficamos instáveis, como na situação atual, a reflexão é inevitável. “Penso que temos que parar e refletir sobre o que está acontecendo e o que estamos sentindo. Peço como exercício aos pacientes que façam perguntas sem ter medo das respostas. Essa situação está provocando o quê em mim? Por que estou me sentindo assim? As perguntas precisam de respostas e nem sempre elas são agradáveis. Mas é fundamental reconhecer o que está fazendo mal para aliviar a tensão, para a gente ter mais clareza e ir em busca de uma ajuda”, pontua.

A ajuda pode ser tanto dos profissionais da saúde como de amigos. “Nós podemos ajudar a trabalhar esta instabilidade. É importante colocar pra fora o que está sentindo e isso pode acontecer até através do choro, por exemplo. Há receio de chorar, como se fosse uma fraqueza, mas o choro coloca pra fora e alivia o que a pessoa está sentindo, e isso pode ser feito com um amigo, uma pessoa próxima. Outro ponto fundamental é a atividade física, e não precisa ser a convencional. Atividade física é tudo o que está em movimento. Podemos fazer polichinelo, jogar bola com o filho, correr no quintal. O movimento tem o poder de liberar hormônios que trazem benefícios para o corpo. Leitura e música também são pontos que vão contribuir para a pessoa lidar com a instabilidade”, orienta a psicóloga.

Saber acolher a dor do outro é de suma importância. “O papel do líder é acolher a dificuldade do funcionário. Um ajuda o outro. Vejo que o medo, a insegurança e a ansiedade são sintomas que já estão aparecendo com a instabilidade. A ansiedade é você ter um pensamento acelerado e não saber o que vai acontecer. As pessoas estão acostumadas com o padrão, o estável, e quando acontece algo assim, se desequilibram e perdem a estabilidade. Dentro das empresas, é muito importante que os líderes saibam realmente observar se os profissionais estão precisando de ajuda, e proporcionem recursos para que os funcionários se sintam acolhidos”, completa Ana Paula.

Resiliência e empatia viraram palavras de ordem para sobreviver. “Nem sempre o que o outro está sentindo é o mesmo que eu, mas é importante respeitar. Já a resiliência é uma questão que envolve administrar os sentimentos mesmo quando o controle da situação está fora do alcance, isso é ser resiliente. Estou com uma dificuldade, porém, em vez de ficar parado, vou fazer aquilo tomar outra forma”, define a psicóloga.

Sem dúvida, tudo isso nos fortaleceu e trouxe um preparo até então inimaginável. “Sofremos o impacto e sobrevivemos, isto nos preparou para qualquer outro impacto no futuro. As empresas entenderam que precisam ter estrutura financeira para o baque, as que estavam mais organizadas conseguiram se sair melhor, mesmo que aos trancos e barrancos. Crises sempre vão existir, mas esta acometeu também a vida e aí mexe com o nosso emocional, com o medo de morrer, e isto é maior que o dólar a 6 reais, que estas coisas de mercado. Fomos forçados a lidar com todos os aspetos de uma pandemia, querendo ou não, ficamos mais resistentes”, conclui Cleufe.